Inefável brilho das cenas mínimas

A escrita do premiado autor gaúcho Amilcar Bettega é marcada por uma técnica impecável.

Prosa pequena, seu mais recente livro, reúne 69 textos nos quais o rigor na ordenação das frases e a elegância na condução narrativa demonstram uma capacidade pouco vista na literatura brasileira feita hoje no que diz respeito ao manejo do fazer literário dentro do repertório de possibilidades linguísticas.

São ficções curtas, tateios, narrativas mínimas, fragmentos construídos com extrema delicadeza através de um processo de transposição da experiência da vida para o plano artístico da literatura. O reino do pequeno, tal qual detalha o autor, do menor que sobrevive ao desaparecimento completo graças a uma insistente vontade de texto.

Em razão de suas características formais, está ali na mesma prateleira dos estupendos Prosas apátridas, do peruano Julio Ramón Ribeyro, e A volta ao dia em 80 mundos, do argentino Julio Cortázar, obras que primam pela montagem descontinuada de maneira a se utilizar da solução estética para extrair do singelo algo grandioso.

Aliás, há muito de inspiração do estilo cortazariano na mecânica da escritura, sobretudo no entendimento da forma breve como o tracejar de uma figura geométrica.

A organização estrutural dos textos está sempre em busca de um desenho espacial, de executar um movimento incessante de ir e voltar, de terminar e recomeçar, um moto-contínuo que impulsiona o fio condutor ora ao feitio de um círculo, ora em trecho retilíneo que deixa a tudo propositadamente instável, sem fecho.

Muito se persegue também da configuração da imagem. De se utilizar da percepção de uma imagem como gatilho para a prosa que dela decorre, ao mesmo tempo que se valer de uma cena e da ação dentro dela para formular um entendimento que transcende a observação para um senso de raciocínio que vai além do cenário estipulado.

É o privilégio da invenção estabelecido por meio de um jogo entre as relações internas dos componentes do enredo que produzem direções e sentidos.

Por conta disso, não há uma ordem exata para a leitura, contudo a arrumação proposta pela edição reúne as narrativas em trios, associando-as a partir de um assunto, de um conflito, de um tom, de um elemento em torno qual se fabrica um movimento. Nada foge à realidade, nada transgride o alcance humano.

Observações de cenas, um homem sentado numa cafeteria, uma praça, uma garçonete que se despede do emprego. Sonhos, lembranças, lençóis secando na grama. Um retrato, alguém tirando um foto. Um homem lendo, um livro sobre um homem lendo, um homem lendo um livro sobre um homem lendo. Nuvens.

A variação entre o vasto e as minúcias do ordinário traz a sensação de que tudo se captura, a um só tempo que nada é palpável nesse contato de investigação. Não se trata de dar ossos, nervos e músculos para o texto, e sim de examinar seus interstícios, explorar seus vasos literários à moda de um estudo, de um exercício cognitivo.

Por isso a impossibilidade de enquadrar o volume numa só expressão artística ou num só gênero, já que dele emana todo um conceito ambíguo, paradoxal, autoconsciente, bebendo da fonte da ficção, da metalinguagem, da potência imagética, da liberdade total da criação, que pode até transpor fronteiras e passar como ensaio, como análise crítica.

Bettega, afinal, oferece ao leitor comum um livro repleto de vislumbres e segredos, para se ler com paciência, apreciando os deslocamentos precisos da escrita que deixa rastros de um estilo marcante e a adesão de uma profunda sensibilidade. Ao passo que, ao escritor ou, em especial, ao aspirante a escritor, um manual de como fazer ficção com o ínfimo, com uma fagulha que desperta as engrenagens que movem a composição do plano literário que é exposto, que é mágico, que é infinito.

Sem dúvida, um dos melhores lançamentos do ano.

 

 

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Livro: Prosa pequena

Editora: Zouk

Avaliação: Excelente

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