Anos de rebeldia e criatividade

Que fim levaram todas as flores, do carioca radicado em Curitiba Otto Leopoldo Winck, é um livro que testa todo tipo de rótulo ou de classificação, porém é inconfundível quando se desvenda qual propósito motiva sua composição narrativa. Da parte do leitor, são necessárias ao menos duas concessões para que o conteúdo funcione: a suspensão da descrença até as últimas páginas e a atenção aos pequenos sinais de que a compostura do enredo esconde algo em suas costas.

Não por menos, a obra admite ser lida como romance histórico, ou como volume de memórias, ou como tomo enciclopédico, ou como relato autometaficcional. A certa altura, determinado personagem faz uma representação perfeita, ainda que volúvel, do que é a trama: uma história contada onde, ao mesmo tempo, se conta como se conta a história e, ao mesmo tempo, se questiona a história que se conta. É complexo? Teoricamente. O resultado é satisfatório em todas as frentes? Em grande parte.

Assimilar o livro enquanto romance histórico, na acepção convencional do gênero, pode ser incômodo por conta da falta de organicidade entre invenção e pesquisa.

Recorrentemente, a trama freia para a abertura de espécies de verbetes onde se contextualizam os fatos que servem de base para a ficção. Em outros casos mais específicos, esses parênteses emulam registros lexicográficos, a exemplo de quando um personagem faz referência aos zigomas de uma moça e, na sequência, vem a definição da palavra zigoma. O mesmo ocorre quando vem à baila o termo ponto, expressão da época da ditadura que designava o local de encontro entre militantes.

Não se trata, contudo, de uma conduta experimental, e sim de um procedimento narrativo em que se entrelaçam fios de realidade e de imaginação, dando forma a um tecido de superfícies sobrepostas, um painel onde o que é real se superpõe ao que é inventado, e o inventado, por sua vez, desdobra-se numa terceira camada.

O argumento central dá conta da amizade entre três personagens que vivenciam um processo atribulado de formação em meados dos anos 60, período de governo militar no Brasil. Filho de um dono de mercearias numa Curitiba ainda interiorana, Ruy tem sua vida transformada quando se aproxima de Adrian, um adolescente recém-chegado na cidade e colega de classe, que recende uma atitude de rebeldia aos valores tradicionais da sociedade de seu tempo.

Adrian usa cabelo comprido, calça jeans e introduz Ruy num universo de livros, filmes e discos da chamada contracultura, levando-o de um estado de alienação para a contestação dos atos impostos pelo regime. Resolvem, então, montar um grêmio estudantil no seio do colégio tradicional, conquistando a adesão de alguns alunos, entre os quais Elisa, uma bela jovem politizada, que defende a emancipação da mulher e transmite ideais comunistas ao grupo.

Daí, não custa para se tornarem uma célula subversiva, espalhando pichações com palavras de ordem pelos muros da cidade, e pagando o preço na mesma medida. Mas, como salienta o narrador, não era só de política que viviam. Seus ritos da adolescência ainda seriam marcados pela descoberta do sexo, do amor, das ilusões de se viver a utopia.

O livro, assim, dá um pequeno salto temporal por meio do qual os atores da trama encaminham-se da juventude para o início da vida adulta. Com a repressão do regime apertando cada vez mais, consequentemente suas reações de rebeldia se tornam mais incisivas. Confabulam uma revolução, reagem a notícias de enfrentamentos, detenções e mortes vindas das grandes metrópoles, entram eles próprios em atrito com os militares. No campo pessoal, amam e desamam, aliam forças ou agem em ações independentes, reencontram-se. Até que é decretado o Ato Institucional nº 5 e, por definitivo, abandonam o movimento estudantil para ingressarem na luta armada.

Winck faz um recorte de um tempo de ideologias, aspirações, desilusões e vilanias, elaborando um microcosmo, um pequeno simulacro das transformações sociopolíticas e culturais que abalavam todo um país. Acerta em cheio por não romantizar os idílios da juventude transviada, por outro lado incorre em excessos e desajustes ao relatar e emular o cenário mundial e toda uma memorabilia que faça o leitor se convencer de que o enredo se passa nos anos 60.

Há uma necessidade expositiva de reiterar acontecimentos e inundar a prosa com gírias, expressões e diálogos autorreferenciais. Em todo momento, objetos, marcas, músicas, títulos, figuras públicas são nomeados a fim de se produzir aderência. O personagem, por exemplo, não anda de bicicleta, mas de Monark.

O caso é que, em dado momento, surge uma voz onisciente que olha sobre a história na condição de relato ficcional, apontando exatamente esse “certo preciosismo de linguagem e excesso de informação histórica”como parte de um processo de composição, guinando o ponto de vista sobre os fatos e tornando o livro algo especial.

É uma artimanha? Sim, mas bem executada. Agindo como num exercício de metaliteratura, Que fim levaram todas as flores esgarça o universo de seus personagens, convertendo a imaginação num libelo contra a desumanidade e a opressão de uma ditadura que não conseguiu anular “uma espécie de idade de ouro da rebeldia e da criatividade”.

Isso fica evidente na sensível terceira parte, toda constituída por um longo encontro, onde dois personagens olham para trás e dizem ou não conseguem dizer que, entre lembranças e silêncios, se o que passou foi verdade ou não, o importante é que viveram.

 

 

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Livro: Que fim levaram todas as flores

Editora: Kotter/Patuá

Avaliação: Bom

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