A morte faz parênteses

Mariana Travacio é uma voz expoente da nova narrativa argentina. Em comum a autoras como Samanta Schweblin e Mariana Enríquez, seus contos abordam situações da vida diária nas quais se abrem fissuras e, pouco a pouco, tudo se desmantela por conta de algum tipo de perturbação.

Diferente, porém, de suas conterrâneas, Travacio não flerta ou recorre a literatura de gênero para substanciar suas histórias. Sua matéria ficcional tem origem nas relações humanas, em modulações de angústia que sintonizam um circuito de personagens atacados pela memória ou por assombros de ordem psicológica.

Cotidiano, reunião de 11 textos que marca sua estreia no Brasil, é um exemplar raro desse estilo.

Como se seguisse à risca a tese sobre o conto de Piglia (outro argentino), o andamento narrativo vai ocorrendo de modo elíptico e fragmentário, guardando “nos interstícios da história” um elemento, uma informação, uma chave de cisão oculta, ou melhor, entremostrada. Desde as primeiras linhas, o leitor nota que há algo não-dito que, invariavelmente, vai se revelar mais para frente, muitas vezes num final inesperado e contagiante.

O mérito advém da escritura sofisticada, elegante, que, embora carregada de signos, matizes e imagens, é precisa, direta, com qualidade para construir um ambiente de tensão ora pelo destino da tragédia, ora pela bile da comédia, quando não pela combinação de ambos.

O apuro no trato do texto exprime uma inteligência criativa que, por sua vez, demonstra recursos para trabalhar efeitos formais, como no caso do ótimo “Construção”, no qual uma mulher que perdeu a memória vai recriando seu passado à medida que a estrutura do conto também se monta.

Ou em “Trajetórias”, armado a partir de fragmentos que, gradativamente, revelam-se partes de duas histórias, que se convergem num acontecimento impactante.

Esse sistema de puzzle se repete outras vezes, ainda que, curiosamente, todos contos se encerrem de modo aberto, alguns induzindo a interpretações. “Bleu, blanc, rouge” são recortes embaralhados de relacionamentos amorosos que não se encaixam corretamente, contudo a sedução está em acompanhar o trânsito das peças.

Exercícios preciosos de alteridade surgem como que no ardiloso formato de crônica doméstica, em “Ninguém ali” e “Matem os pombinhos”, este com um dos melhores começos de conto, expondo o quanto é ridículo um casal de cinquentões recém-apaixonados.

No entanto é mesmo essa engenharia multifária que funciona como marca de identificação, um corpo textual em contínua variação e intensidade, fielmente representado por “Caminhada”, texto que encerra a antologia, no qual uma narração despretensiosa flui a esmo pelas ruas de Córdoba, província vizinha de Rosário, onde nasceu a autora.

De fato, Travacio viveu alguns anos de infância no Brasil, o que dá para encarar a estreia como retorno. Seria, assim como escreveu Piglia, uma história com a duplicidade e a condensação da vida que define um destino. Os relatos secretos se impõem tanto na realidade quanto na ficção.

 

 

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Livro: Cotidiano

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito Bom

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