Maria, Marias, Marielle, Presente!

Maria Leopoldina de Áustria ficou para a História como uma das principais articuladoras do processo de Independência do Brasil. Esposa de D. Pedro I, a monarca atuou nos bastidores da política, agindo como conselheira fiel do marido em decisões fundamentais para a conversão da colônia portuguesa em nação. De forma simbólica, pela maneira que abraçou a causa no início dos anos 1800, não seria leviano afirmar que foi a primeira mulher empoderada em território legitimamente brasileiro.

A mineira Viviane Ferreira Santiago aborda esse lado público da imperatriz, em As dez Marias, no entanto é a vida particular de Leopoldina, a parte que não foi profundamente iluminada pela História, que a autora delimita e toma como assunto central de seu livro. Os momentos de alcova, o tempo de esposa, o circuito de fatos íntimos que a colocou na condição de mulher que lutou e triunfou no país que fez livre e “acabou figurante da sua própria história”.

São textos breves que cobrem o período de 1822 a 1826, e dão conta da primeira reação de Maria Leopoldina ao conhecimento de Domitila, a amante de D. Pedro I, até os 10 dias de agonia sobre o leito que resultaram em sua morte precoce. A fim de imprimir uma qualidade confessional, o volume se estrutura no formato de diário.

Viviane propõe a suspensão da descrença, romanceando acontecimentos históricos de modo a inventar circunstâncias, diálogos e pensamentos de uma mulher aflita, traída, pressionada a se conformar com a decisão do marido de levar a amante para a própria casa, saudosa de seus familiares na Europa, sufocada pela solidão. Suas tréguas estão no reconhecimento de suas ações pelo povo brasileiro, nas cartas que escreve para a irmã (também Maria) e no afeto de outro homem, um leal confidente.

É, portanto, um exercício de enaltecimento ao mesmo tempo que uma peça de denúncia visada nas “dores, opressões e demandas” de uma soberana obrigada a ser “submissa e concordante com a postura autoritária e patriarcal do marido e do Estado”.

Entremeados a esses escritos, a obra encaixa relatos de outras nove Marias, localizadas no espaço-tempo entre os séculos XIX e XXI. Episódios que também mesclam verdade e imaginação, focalizados em mulheres que enfrentaram um mundo de censura, desprezo, covardia, repressão, violência, e sofreram, e morreram, e superaram, não se submetendo às ordens de que se calassem, de que se diminuíssem, demonstrando a inconformidade e a força feminina.

Escravas, clandestinas em campo de guerra, rebeldes contra casamentos arranjados, mas também vítimas da violência física, da violência psicológica, da violência doméstica, da violência social. Há dois casos emblemáticos: o de Maria da Penha (descrito com detalhes atordoantes), que serviu de base para a formulação da lei, e o da filha de Antônio e Marinete, que “era para ser Maria, mas se fez Marielle”, Marielle Franco, a vereadora carioca executada em março de 2018.

Ao alinhar tais presenças simbólicas à contextura do livro, a autora atesta o caráter panfletário, ativista da obra, entrando para um grupo de escritoras que se valem da literatura como instrumento de contestação, de empoderamento. A questão está em balancear a verve crítica com a apuração dos componentes de enredo. E, no que se refere a este último quesito, a fragmentação da estrutura, enxertada pelos relatos avulsos, acaba prejudicando a condução da “narrativa base”.

O longo intervalo coberto, os variáveis saltos temporais e o foco em momentos pontuais interpostos a uma sorte de textos dissociados acabam por incorporar aos fragmentos que constituem a história de Maria Leopoldina um aspecto dispersivo. Falta musculatura a esse segmento, magnetismo entre os elos de ligação. Funcionaria melhor se centrado numa situação em menor escala (a questão do triângulo amoroso, por exemplo) ou se unificado, tal qual o texto sinergético de uma seleta de contos.

De fato, nas pequenas narrativas estão os melhores momentos do livro. Coesos e bem cerzidos em seus arcos dramáticos, os relatos conseguem transmitir o propósito nuclear do livro de ser uma exclamação em prol dos direitos femininos, um grito polifônico que decreta independência.

 

 

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Livro: As dez Marias

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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