Tramas movidas por conduções randômicas

Passa longe da função do crítico estragar a experiência de leitura. Portanto, por mais incoerente que pareça, recomendo que se evite esse texto antes de ingressar nos contos de Urubus, de Carla Bessa. O menor conhecimento ofertará ao leitor um engajamento próprio da assimilação do inesperado, das descobertas envolventes.

O caso é que sem texto não há análise. Então, de saída, atesto que, a despeito do conteúdo instigante, o grande trunfo da antologia está no formato. Na estrutura movediça que dá à obra o aspecto ambivalente de seleta de contos e de novela que vai se formando durante o avançar das páginas, entre encaixes de partes e peças remanescentes.

A autora estimula um movimento através do qual curtas histórias se encerram e recomeçam mais à frente, em ângulos levemente distintos, em contextos elásticos.

São narrativas que se comunicam na dinâmica de um puzzle, um jogo, um eixo que atrela fios a personagens que se cruzam, que se desatam para proporcionar outras amarras e, assim, alcançar novos personagens. Não há um fio condutor, e sim uma trama movida por conduções randômicas.

Nada parece, de fato, ter um começo, mas os três contos iniciais circundam o que poderia se considerar o marco zero. “Urubus” apresenta Zezinho, um menino que vive com o pai no lixão, retroalimentando-se de lixo. Em seguida, vem “Um dia na vida (de Wellington)”, sobre a dura rotina de um motorista de ônibus que, certa manhã, pega uma passageira de comportamento estranho, agarrada a um embrulho. Ao passo que “Vulcões” trata de Aparecida, uma idosa que mora com o neto e a antipática esposa dele.

Tais personagens citados (e recortes de suas histórias) irão reaparecer em outros textos, nem sempre na condição de protagonismo, mas provocando uma contínua reordenação que abre outros caminhos e perspectivas, e põe em foco atores da trama anteriormente secundários.

Um exemplo é a mulher do embrulho que ganha a sua própria narrativa no qual executa um ato perigoso, intercedido por um indivíduo que vai surgir, tempo depois, em outro conto cuja trama está conectada ao universo de Aparecida, ainda que ele não interaja com a idosa.

É arriscado, tende a virar uma colcha de retalhos, contudo Bessa demonstra perspicácia ao mesmo que segurança para articular e desarticular o corpo textual, de modo que tenha um tratamento experimental sem ser apenas uma experiência estética. Prova disso está na maneira como a liberdade criativa também influencia no estilo. A prosa coloquial, esgarçada, por vezes emula o linguajar popular, desconsiderando a pontuação convencional e recorrendo à figuras de linguagem para constituir uma identidade imagética.

A postura se complementa com a preocupação em associar, aos dramas humanos, um caráter social de denúncia, de protesto. Assunta-se a miséria crônica, os meninos de rua, a violência urbana e como a decadência das metrópoles se reflete na ruína pessoal, num sentimento irreversível de derrota, de fim.

Não por menos, o último conto “Urubus II” fecha um ciclo, dando voz a personagens inusitados.

Com suas formas breves que se concluem ou que se põem em suspensão para a imaginação do leitor dar continuidade, Carla Bessa compõe um retrato de um Brasil intratável, um país que, referenciando a epígrafe de Bukowski, as pessoas têm, cada vez mais, o pavor da vida.

 

 

***

 

 

Livro: Urubus

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s