Contos de amor assombrado

Desde sua estreia, nos anos 90, com Pente de Vênus, Heloisa Seixas tem construído um universo de contos no qual o sobrenatural se incorpora à rotina por meio de rachaduras provocados por perturbações na natureza humana. Uma espécie de assombro que busca, na tradição do gênero, um viés psicológico, uma manifestação supranormal que insurge do espaço do subconsciente e dos sentimentos, fazendo um movimento de dentro para fora.

São cenas da vida moduladas pelas pulsões mais profundas, derivadas de obsessões, de desejos, de dilemas, de revelações. O incomum se apresenta à maneira de um desconcerto sub-reptício ao mesmo tempo que sumário, um estranhamento que vai ganhando corpo na forma de inquietação.

O contos de A noite dos olhos, sua mais recente antologia, formulam-se no apelo desses mesmos desajustes. Situações de abalo, em grande parte protagonizadas por mulheres, que oferecem uma ambivalência de estado, um movediço do que é sentido e do que é palpável, do que é terror físico e do que é mental.

É o caso de “Dilema no escuro”, texto que abre o livro. Uma mulher refugia-se no banheiro de casa, levando consigo um celular. Há algo que lhe aflige, uma ameaça que, pouco a pouco, vai se convertendo em suspeita, uma batalha dentro de si. “Alexia”, que vem em seguida, também se desenvolve num crescendo de tensão. Invasiva de modo a detalhar os movimentos e sensações da protagonista, a narração acompanha uma empresária que se prepara para uma reunião de trabalho, quando se dá conta de que tudo ao redor está escrito em alfabeto cirílico. As últimas linhas guardam uma (boa) reviravolta, introduzindo um efeito usado com recorrência pela autora.

Vide o excelente “Vingança” (o melhor conto), no qual uma viúva, que regrou o casamento com moralismo e controle, faz uma descoberta chocante ao encaixotar os pertences do marido. “A fotografia vermelha” também engatilha uma contravolta, com a diferença de se utilizar de transições temporais para costurar a narrativa.

Nem todos os textos, porém, desenvolvem-se numa subida climática que incorre em fratura. “Banhos árabes”, sobre uma turista brasileira que faz uma viagem pelo ocre e misterioso Mediterrâneo, tem tratamento sinestésico, oferecendo uma onda de estímulos visuais e olfativos ao leitor que se amalgamam em erotismo. A trama parece evocar a expressão “a pequena morte”, atribuída à refração do orgasmo, de modo a traçar um paralelo entre o gozo e o decesso.

Esse é também o conto no qual se denota um apuro para com a carpintaria da escrita, ordenando frases com uma condução macia e trabalhando a linguagem de modo a estabelecer imagens de sóbria beleza, uma articulação entre forma e sentido que procede de um caráter subjetivo e produz um tipo de lirismo desataviado.

No contínuo das páginas, surgem os “Pequenos contos de amor assombrado”, divididos em dois grupos, que, como sugere o nome, são microcontos nos quais a chave de espanto está associada ao disparo de determinados sentimentos e estados de consciência. Alguns percorrem a estrutura convencional da forma breve; outros têm o aspecto de experimentações, reproduzindo condições emocionais desdobradas em fugas da mente, tribulações.

“Ano novo”, no qual uma mulher que participa de uma festa de réveillon tem visões de uma figura enigmática, dá início a segunda metade da antologia, caracterizada pela ascendência de um insólito que se manifesta em fantasmagorias, em forças que ocorrem de elementos sombrios. “Hórus”, que faz menção ao deus do Egito Antigo, trata de um homem e seu gato sensitivo encurralados por uma entidade no interior de um apartamento. “Ritual” começa com uma mulher caminhando, solitária, por uma rua escura, até dar de frente com uma estranha procissão capaz de atravessar fronteiras do mundo físico.

Dois contos fazem homenagens a dois escritores gigantes, em graus de afetividade distintos. “Sem mãos”, precedido por uma frase de Carlos Heitor Cony, acompanha um escritor de nome Carlos, que perde a direção das mãos. “O poço sem pêndulo”, uma referência clara ao conto de Edgar Allan Poe, fala de um homem que navega até a ilha Sainte-Marguerite, conhecida por abrigar a prisão do Homem da Máscara de Ferro, e a viagem penetra pelo plano onírico da sensação dolorosa de experimentar a vida alheia.

Próximo ao fim, o texto que batiza o livro é como um compósito dos temas, dos significados e das articulações de enredo trabalhados anteriormente. Uma personagem é atacada por dois olhos fulgurantes na escuridão, causando um deslocamento do curso natural da história, onde o incidente passa a ser visto a partir de um outro ponto de vista.

Tem assombros, erotismo, transições estruturais e aquela que se distingue a motivação central da antologia: a de mostrar que a existência humana por ser arrebatada tanto pelo amor quanto pela morte.

 

 

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Livro: A noite dos olhos

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Muito bom

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