Representação crítica do fantástico

A literatura latino-americana, em sua tradição de gênero, sempre buscou no fantástico uma chave de representação.

Da primeira linhagem de Macedonio Fernández (Tantália), Leopoldo Lugones (O punhal) e Horacio Quiroga (A galinha degolada) à geração seguinte de Bioy Casares (O relojoeiro de Fausto), Cortázar (A casa tomada) e Felisberto Hernández (O cavalo perdido), o desconcerto causado pela incorporação do insólito no cotidiano foi uma maneira de representar estados de consciência, ações de sentimentos e conflitos existenciais.

Com o realismo mágico vivendo seu boom no período em que os governos militares sequestravam o continente americano, vários autores usaram da alienação escorregadia do fantástico para protestar e expor o mecanismo de opressão, desaparecimento e morte institucionalizado pela ditadura.

No Brasil, temos o exemplo do romance Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, e do conto “Os dragões”, de Murilo Rubião, nos quais as mensagens de alerta e de revolta eram cifradas no sobrenatural dos mortos que voltavam para criticar a sociedade e de seres mitológicos controlados e sufocados moralmente.

Os contos de Estados alucinatórios, do mineiro Eduardo Sabino, bebe dessa mesma fonte temática e estilística, com a diferença de se utilizar do elemento fantástico para tratar de assuntos caros ao tempo atual, a exemplo da xenofobia, do crime de ódio, da massificação do trabalho escravo, da paranoia causada pelos dispositivos digitais. A verve que embala a antologia, por vezes, assemelha-se a dos roteiros da série Black Mirror, mas com uma consciência criativa legitimamente brasileira.

A efeito de comparação, seria algo como um texto de Murilo Rubião escrito por Rubem Fonseca. A toda uma brutidão, uma secura na maneira de coser a trama, embora sinérgica em seus acessos de imaginação, afeita a um movimento narrativo dilatável no qual o processo de descoberta conduz, inevitavelmente, a um golpe de espanto.

Os contos inserem, sem surpresa, o insólito nos veios do enredo, guardando a surpresa para o que esse insólito irá representar na resolução dos fatos. É, a uma só vez, estranha e familiar, uma ordem avessa da vida que se pauta na alegoria para se expressar, porém sendo realista em seu alvo de interesse, no destino de sua mensagem.

Com isso, temos uma primeira parte extraordinária que, se limitada a si, merecia não só o título de uma das melhores antologias fantásticas, mas de uma das melhores antologias de breves narrativas contemporâneas. Fica difícil versar sobre esses primeiros contos sem lesar a experiência da leitura, todavia as histórias narram a rotina de um adolescente que tem de lidar com as consequências de ter um demônio como parasita, a convivência entre um homem e um crocodilo (e a descoberta de como melhor alimentá-lo), a ruína de uma família a partir de uma infestação de baratas, o terror de um homem assaltado por sons e movimentos de origem incerta, no interior de seu apartamento.

Obviamente que há camadas e sentidos por trás dessas premissas, sobre as quais o supranormal e o inusitado se transfundem para criar uma representação abstrata do mundo e, logo depois, demonstrar seu poder de desconstrução. O que revelam está no absurdo espelhado de notícias, de perfis das redes sociais. Questões sobre preconceito, violência contra a orientação sexual, alienação, obsessão pela exposição, opressão pela fé, mentira, autoengano, narcisismo, vacuidade.

Há um conto, que merece destaque, sobre o trânsito de um estado onírico para uma apropriação de identidade, em que o trunfo está na organicidade entre solução estética e técnica narrativa. O texto acompanha um diálogo entre dois sujeitos, no qual a fala de apenas um deles chega ao leitor. Do segundo, tem-se somente as reações rebatidas nas frases daquele que detém a voz. É algo muito difícil de se fazer, sem que o diálogo soe como monólogo. Mas Sabino mostra segurança e perícia para inserir as pausas respiratórias nos lugares exatos, para acertar o tempo em que o fluxo da história ganhe tração na interferência desse personagem oculto.

Ainda que de boa qualidade e coerente com o espírito do livro, a metade final está numa nota abaixo de sua predecessora. Os contos mantêm a perspectiva crítica através da dissolvência da realidade, embora não consigam elevar seus enredos a um estágio de construção em que a experiência de viver nesse mundo deformado traga a angústia (ou o fascínio) da ruptura que leve a um novo entendimento. O autor encontra referências em certas sublimidades, um fantástico transcendental. Assume pontos de vista desajustados pelo delírio do homem comum, pelo ridículo (e pelo perigo) que há nas verdades absolutas propagadas pelos defensores de qualquer ideologia ou religião, porém opta por conduções narrativas sem ou com tênues convergências, tangenciando a expressividade dos fatos e afetando o pleno envolvimento.

Como disse anteriormente, são contos acima da média, mas, diante da grandeza dos primeiros textos, acabam ofuscados. De todo modo, contemporâneo a um tempo em que se debate a relevância da literatura fantástica, Estados alucinatórios comprova a força do gênero e consagra um autor expoente de uma linhagem que sucede nomes como Murilo Rubião (O ex-mágico da Taberna Minhota) e José J. Veiga (A espingarda do rei da Síria). O fantástico, às vezes, é um coelhinho cinzento, camuflado, que precisa se observar com cuidado, ou um parasita hospedado num travesseiro de plumas, que suga a energia do cérebro sem que se saiba.

 

 

***

 

 

Livro: Estados alucinatórios

Editora: Caos & Letras

Avaliação: Bom

 

 

 

4 comentários sobre “Representação crítica do fantástico

  1. Maravilha de resenha! Eu só devo discordar sobre a parte final (do livro) ter menos força. Na minha opinião, o conto que fecha o livro “Alice e as barragens” está uma joia de narrativa, super conectado com a realidade e imprimindo uma tensão que não se dissipa, mesmo após o ponto final. Excelente habilidade de Sabino!

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