Percursos da trama da consciência

Ônibus, do argentino Elvio E. Gandolfo, é um livro que desafia qualquer tentativa de classificação ou de rótulo, ao mesmo tempo que se mostra livre para que o leitor o enquadre num gênero, de acordo com sua perspectiva de leitura.

Pode ser considerado um relato de viagem, um diário testemunhal modulado por transições internas e externas, uma longa crônica sobre a matéria volátil dos dias, um encadeamento de breves observações que vasculham as dobras aderentes entre realidade e imaginação.

Ou, talvez, tudo isso. Ou, talvez, nada disso. O próprio narrador, a certa altura, tenta explicar assim o texto: (…) não é propriamente um romance, nem um calhamaço autobiográfico, nem filosofia, antes o discorrer sobre a linha reta da rota, da história ou das ideias que graças a mim, ou apesar de mim, vão ir se desenvolvendo.

Bem, chamando-a de novela em razão do formato magro e comprido demais prum conto, a obra se assenta em exposições sobre os mais variados acontecimentos e sensações que envolvem um homem durante uma série de viagens de ônibus que faz, repetidamente, entre as cidades de Rosário e Buenos Aires, e vice-versa.

Nesses relatos, ele descreve as condições dos transportes coletivos, relembra momentos e conversas peculiares que participou e presenciou durante o percurso, resgata lembranças que descrevem viagens que fez com familiares, ordena reflexões sobre o cenário que lhe acompanha por fora das janelas.

Gandolfo se vale do recurso de falar por meio de um personagem autoconsciente de seu pertencimento ficcional, a um só tempo agente e narrador dos fatos, que vai alinhavando a trama à medida que se avança a leitura. É uma contextura que brinca com a percepção do leitor, nunca sendo clara sobre o que é real e o que é inventado.

Com isso, instaura-se duas camadas. A primeira dá conta da matéria com que se substancia o concreto do enredo. O autor avalia o estado das frotas rodoviárias; às vezes, apontando problemas, às vezes, ironizando-os (a cena envolvendo o tamanho da latrina, a falta de papel higiênico e uma máquina vazante de suco é hilária), oferece uma galeria curiosa de tipos e suas histórias, fala sobre caminhões, acidentes e conta alguns causos de estrada vividos por ele e o irmão.

Há uma personagem, em especial, com quem o narrador vai escalando degraus de flerte, que funciona como elemento de passagem temporal, até se revelar uma espécie de instrumento de enredo que, a cada aparição descontinuada, vai demarcando a trama com pontos de amarração. É delicado e, ao fim, interessante de presenciar.

A segunda camada, por sua vez, diz respeito ao espírito da obra, que são as apresentações das referências, da coleção de leitura prévia e do uso de paralelos para abordar temas que não estão no texto, embora façam sentido ao se decodificar o texto.

O próprio autor-narrador (esse duplo que bem representa Gandolfo, natural de Rosário e habitante de Buenos Aires) declara que a ideia central do livro nasceu de uma nota publicada pelo escritor francês Georges Perec numa revista (e acertadamente disposta como apêndice). Porém há, também, citações a contos de Cortázar, romances de Pablo de Santis e de Steinbeck, longas de Babenco e de John Carpenter. Até mesmo a Marvel é mencionada.

De outro modo, o enredo dispõe de chaves que são usadas para evocar assuntos externos, como, por exemplo, a comparação entre os encarregados dos ônibus e os agentes de repressão da ditadura argentina, e entre a geografia do passado e a do presente, trazendo a lume a discussão sobre a crise climática. Explorando ainda mais a fundo tais correspondências, é possível até se relacionar o ambiente selado do ônibus ao de uma cápsula do tempo.

Não se trata de que agora a viagem se faça para mim necessariamente mais curta. Só que é outro o tempo. Vai se fragmentando sozinho, em diferentes blocos (…) São paradigmas em troca da adolescência, do temor a crescer, do mundo que está aí, pronto para nos devorar até que é tao velho e tão ocupado com seus próprios assuntos que nos deixa em paz, livres, por exemplo, de ter de viajar de ônibus quando queiramos, e olhar alguns de seus vastos detalhes – o céu, a paisagem – pela janela, reflete o narrador.

Pelas práticas que impõe, Ônibus tem o aspecto clássico da história mental. Gandolfo, em dado momento, chama de trama da consciência. É uma boa definição para a história de um homem que, de viagem em viagem, avança para dentro de si e leva o leitor a participar da montagem desse mundo interior que também é a montagem do livro. Um exercício de tamanha complexidade exposto da forma mais frugal e suave, que denota a habilidade do condutor.

 

 

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Livro: Ônibus

Editora: Papéis Selvagens

Avaliação: Bom

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