Quando acordaram o gigante

É extremamente desagradável, durante o cumprimento de uma leitura, ter alguém sussurrando em seu ouvido. Não que me incomode, de fato, conviver com o fantasma de Camus escorado em meu ombro, mas não era o caso de suportar os casmurros do escritor franco-argelino, e sim de Clamence, do estoico Clamence.

A cada página virada de Os dias da crise, livro recente do jornalista Jerônimo Teixeira, a voz do soliloquista de A queda insistia que eu enredasse associações, travasse analogias, aclimatizasse as narrativas, rememorasse frases. E, de tanto tagarelar, recordei de um trecho, logo no começo da novela, que diz: Quando pensamos muito sobre o homem, por trabalho ou vocação, às vezes sentimos nostalgia dos primatas. Estes não tinham segundas intenções.

Por quê? Porque, dentre todas as implicações que se desprendem do enredo de Teixeira, a mais insidiosa é aquele que leva a crer que se trata de um estudo de arquétipos. Não, de forma alguma. Todos ali são genuinamente humanos, pois se enquadram em modelos sociais, através dos quais entrincheiram suas segundas intenções.

O próprio Brasil fervia em propósitos dissimulados. Estamos em junho de 2013, o disparo das manifestações populares, lembram?; não é pelos 20 centavos. Foi quando o país rachou ideologicamente entre coxinhas e mortadelas, quando as redes sociais passaram a ser usadas como panfleto, como tribunal, como máscara.

Alexandre, o protagonista do romance, neste caso é uma exceção. Não tem Twitter, Facebook e afins. Mas nem precisa, pois todos que orbitam a sua vida agem como dentro de uma realidade de rede social, entre rótulos e esteriótipos, volúveis, bandeirando discursos feitos donos da verdade, embora artificiais, apesar de ambíguos.

Helena, a namorada, é uma professora de Letras da USP, com uma febril oratória de esquerda, porém tirana entre quatro paredes (e uma cama); Laura, a filha, criada e protegida do mundo bárbaro com o melhor que o capitalismo pode oferecer, envolve-se com quebra-quebra de banco e black blocs; Fábio, o irmão também professor, que vangloria-se de sua estabilidade profissional, decide abandonar tudo e se mudar para os Estados Unidos, de modo a trabalhar numa empresa mentoreada pela tal sustentabilidade.

Na empresa em que trabalha, combalida por cortes causados pelos ventos do tornado F5 que seria a crise econômica em meado de 2014, um CEO, com fama de salvador da pátria e uma metralhadora de frases de efeito, é contratado para não deixar a firma afundar, enquanto a relação tensa entre os funcionários revela um grupo heterogêneo e patético, que vai do burocrata em fim de carreira, vampirizado pelos filhos, ao que, hoje, conhece-se como bolsominion.

Fora do ambiente corporativo, eles formam o Círculo da Blasfêmia, um clube do Bolinha norteado pelos pensamentos de um guru empresarial, cujos livros omeletizam filosofia e princípios de auto-ajuda, onde os participantes têm carta branca para praticarem as mais aliviantes heresias, atacando desígnios sagrados e mundanos, até que a entrada de um convidado e um comentário polêmico sobre os índios azedam o caldo das amizades.

São os ditames da polarização dando as caras, e intoxicando os relacionamentos em todas as esferas, tornando quem pensa diferente ou tem a opinião contrária em inimigo, e levando milhares de pessoas às ruas num impulso selvagem de converter as ideias em práticas de protesto contra o estado das coisas; a ode ao gigante que acordou.

Teixeira conduz sua trama em chave satírica, com tom provocador, ilustrando esse momento de agitação do país através de um circuito de personagens que vão se transmutando no compasso dos fatos, expondo seus lados mais radicais, contestando a política, endurecendo uma voz que, no fim das contas, não passa de blague caricato.

No meio do caos está Alexandre, uma espécie de náufrago do seu próprio fracasso na condição de pai, de amante, de profissional, tentando agarrar-se a uma boia no lastro do turbilhão, mas levado pela corrente de um extremo ao outro e, quando se dá conta, está entre a matilha com uma pedra na mão, pronto para acertar a vitrine de um banco.

O autor concentra a dimensão histórica na experiência particular desse personagem, confuso sobre o que está acontecendo, como difuso era o próprio curso dos acontecimentos, embora acabasse por desencadear uma mudança drástica no cenário político nacional. Esse contrassenso que municia a ironia, o humor atrabilioso infundido no exame de comportamentos, no mise-en-scène do mundo corporativo, no olhar sobre uma sociedade que reivindicava mudanças, sem saber bem quais eram.

Um cenário de elementos postiços, retratado, quase de forma alegórica, quando o protagonista faz uma viagem à China, de modo a adquirir o Produto com o qual o CEO irá salvar a empresa, e se depara com um sistema capitalista sui generis, articulado em relances comunistas e totalitários; eficiente, ainda que tão artificial quanto um simulacro.

Minha insônia não contabilizou o número de residências, mas descobriu sem grande esforço quantas pessoas já viviam nessa nova utopia do capitalismo estatal: zero, diz.

A grande sacada, porém, não está na incorporação ficcional ao que seria de tratamento jornalístico, e sim na captura, mesmo diante de um passado de curta distância, do componente subjetivo que liderou as transformações humanas, o zeitgeist dessa realidade representada, cujo traço marcante é a ideia fraudulenta de que a crise funcionaria como uma ruptura necessária para ressurgir um novo país com propósitos retos e progressistas, quando o futuro acabou por levar ao mais obscuro passado.

Ao fim de A queda, Clamence conclui que não há meios de escapar da ruína, pois tudo já era ruína quando se imaginava ser construção. As manifestações de junho de 2013 resultaram na patrulha virtual, no politicamente correto, nas viúvas da ditadura, no resultado das eleições de 2018. Deus, que nostalgia dos primatas!

 

 

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Livro: Os dias da crise

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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