1984 do governo Bolsonaro

Em artigo publicado no The New York Times, em março de 2017, na esteira da adaptação televisiva de seu romance O conto da aia, a escritora canadense Margaret Atwood secretou que a principal regra que se impôs, na preparação de seu mais famoso livro, era que, embora se tratasse de uma deturpação da realidade, todos os eventos que ali estivessem deveriam ter acontecido em algum momento da história do mundo, tal qual toda a menção ao uso da tecnologia.

Passado num futuro distópico, no qual os Estados Unidos tornaram-se uma república de teocracia cristã, o enredo se debruça sobre o cotidiano de um grupo de mulheres mantidas em clausura e usadas para procriação, de forma a abastecer famílias poderosas incapazes de ter filhos em razão de um fenômeno que abateu a natalidade.

Atwood conta que as vestes vermelhas que as personagens usam, por exemplo, vêm do instrumento de exceção e de controle aplicado por regimes totalitários. A cessação da liberdade segue o mesmo paradigma repressor, enquanto a separação dos filhos das mães repercute expedientes de governos ditatoriais, que se perpetuam até hoje.

Não por menos, quando a série estreou, apesar de o romance ter sido publicado na metade dos anos 80, a crítica estabeleceu uma associação imediata com o governo Trump, cujas políticas de vieses radicais proliferaram o medo e a ansiedade quanto ao respeito aos direitos civis e às conquistas femininas ao longo de décadas.

Nesse clima de divisão, no qual o ódio por muitos grupos insurge e o desprezo pela democracia é expressado por extremistas de várias ordens, certamente alguém, em algum lugar, está escrevendo o que está experimentando neste momento, refletiu a autora.

Com a matéria de seus livros essencialmente extraída do regime militar brasileiro, o premiado escritor B. Kucinski parece cumprir o vaticínio de Atwood, em seu novo romance, ao mesmo tempo que lança mão do método da escritora canadense de se voltar ao passado para compor uma versão distorcida do futuro.

A Nova Ordem é também uma obra distópica centrada num regime totalitário, contudo a diferença do livro do professor paulista está no estreito enlace entre a ideia desesperançosa do que está por vir e o presente em curso, a agenda do governo Bolsonaro e as medidas e as declarações de seu estafe político.

O texto referencia o estado dos fatos da ditadura de 1964-1985 e também seu eco no imediato, estabelecendo um alto (e assombroso) grau de plausibilidade quando divisado um cenário do que o Brasil se transformaria daqui a alguns anos, a partir de causas vivenciadas neste momento.

Na trama, o país passou a ser administrado por um alto comando militar, que instituiu a Nova Ordem, um sistema autocrático, que implantou medidas drásticas como o fim das universidades públicas, a privatização das estatais, o controle absoluto da informação e a dispensação dos livros. A homossexualidade passou a ser reconhecida como doença, a idade mínima para se aposentar foi para 80 anos, a Igreja Universal tornou-se o credo oficial e todos que completam 18 anos são obrigados se filiar a um banco.

Os inimigos públicos são os chamados utopistas, aqueles que resistem em protestar, diante uma sociedade apática, e conservam um pensamento crítico. Contra eles, são aplicados métodos sumários de violência, a exemplo de prisões e fuzilamentos. Esmagar os utopistas é prioridade absoluta da Nova Ordem, fala-se, em tom de lema.

Kucinski divide seu livro em episódios sequencias e aleatórios, que dão conta de uma gama de personagens, sendo os mais frequentes o ex-engenheiro Angelino, que, depois de perdas pessoais e de seus direitos básicos (o SUS foi extinto e o desemprego alcança números astronômicos), tornou-se catador de papéis (ou melhor, de livros; pois os livros censurados passaram a ser considerados lixo), e o militar Ariovaldo, médico psiquiatra que busca uma forma de exercer o controle populacional através da intrusão nos sonhos, iniciando com o assalto dos desejos e das paixões, depois evoluindo para a implantação do chip de customização de humanos.

O maior desafio para o autor que arquiteta um novo mundo (ou uma versão deformada do mundo existente) é fazer com que seus personagens ajam de acordo a lógica desse mundo. E Kucinski consegue ser convincente ao trabalhar com uma noção de vilania, sem que seu enredo se engesse num maniqueísmo ideológico.

Estão ali homens capazes de matar na defesa de seus ideais, contudo vítima e algoz são definidos pelo desígnios do sistema, pelas variantes de um processo que retroalimenta o antagonismo entre suas partes. O foco está mais nas engrenagens que nos elementos humanos que as movimentam. Inclusive, há uma espécie de enciclopédia dos fatos.

Com isso, a história se direciona para dentro da Nova Ordem, os bastidores daqueles que praticam a censura, as torturas, os assassinatos, refletindo a loucura de perpetuar o controle na forma com a qual conduzem suas vidas particulares, tratando da experiência do corpo e da mente.

Uma crítica negativa (ou, melhor, uma observação) dá conta da falta de um arco que se apegasse mais às vítimas desse governo de exceção. Tal qual numa incursão pelo fundo dramático da ditadura militar, mostrar as ações clandestinas, as consequências da repressão nos que agem em rebeldia, o impacto naqueles que não se calam.

Talvez, quem sabe, num segundo volume. Apenas seis meses de governo Bolsonaro foram suficientes para se constituir um panorama crível e desalentador de um futuro que dialoga com um passado reprisado pela demência de vozes que fazem uma elegia, que manifestam uma apologia a um pesadelo histórico.

De volta ao artigo de Atwood, a autora retruca que seu livro não pode ser considerado uma previsão, pois prever o futuro não é realmente possível. Vamos dizer, acrescenta, que é uma anti-previsão: se esse futuro pode ser descrito em detalhes, talvez não aconteça. Mas esse pensamento esperançoso não pode depender disso também.

A diferença, quando comparado ao romance de Kucinski, é que não se trata de imaginar o futuro, mas de ressoar um presente que (de maneira absoluta) não tem a seu favor o alívio da ficção. A Nova Ordem é o agora. Utopistas mesmo são aqueles que acalentam pensamentos esperançosos.

 

 

***

 

 

Livro: A Nova Ordem

Editora: Estação Alameda

Avaliação: Bom

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