No reino do deus da carnificina

Um homem chega em casa e a esposa lhe confessa que matou os filhos. Ele então descalça os sapatos, arruma-os com cuidado e sentam à mesa para tomar chá e comer biscoitos. Ato contínuo, assistem um filme romântico, transam e descansam, enquanto, no quarto ao lado, “as crianças estão em silêncio, bocas abertas, pescoços cortados”.

Essa é a tônica de “Canção”, uma das quinze breves narrativas que compõem Sangrem os porcos, depenem os frangos, de Ivandro Menezes. Pode-se imaginar que, aqui, está em curso um tratamento metafórico, que “matar as crianças” signifique retomar um poder de escolha, o livre-arbítrio que a chegada dos filhos subtraiu dos personagens.

Mas, não. Nesse magro volume de contos do autor paraibano, não há concessões para sentidos figurados ou desvios que façam as vezes de licença poética. O estilo é direto, cortante, explícito, e dá conta de conflitos arrendados pela crueldade humana, por uma linhagem de loucura que se reproduz nas verdades cotidianas.

Talvez o que mais se aproxime de um significado tácito esteja numa leitura sobre um Deus ambíguo em seus propósitos de amparo e de punição. Tal controvérsia surge de tempo em tempo, em maior e em menor intensidade, sendo “No princípio”, texto que abre o livro, sua exercitação mais evidente.

O enredo emula a estrutura e o conteúdo do Gênesis (No princípio, era o vazio e Deus criou o céu e a terra, depois a luz, os animais, o homem à Sua imagem, etc), a certa altura estabelecendo um problema e mostrando como o Deus pleno pode ser dúbio quando se trata do entendimento de culpa e de justiça.

Logo de cara, Menezes dá o tom de sua antologia e mostra que não se furta em abordar circunstâncias e temas polêmicos. “Felizes para sempre”, título contraditório, trata do espancamento e da violência sexual contra uma prostituta miserável, com um desfecho inesperado. “Calango”, narrado numa linguagem chucra, é sobre justiçamento.

Há sempre o risco de se trabalhar a crueza em chave de impacto, praticando o choque pelo choque, no entanto as narrativas denotam boa qualidade ao engendrar contextos fundamentados para que o componente de contusão progrida com a trama e se irrompa no momento certo.

Um bom exemplo são os vizinhos “Frágeis tentativas de alcançar o ar” e “Jacarés banguelas não assobiam canções de amor”, que se insinuam complementares, nos quais a suspeita e a resignação ante um adultério (texto I) têm como consequência (texto II) a paixão proibida, a desilusão e a tragédia.

Outro recurso usado é do relato elíptico, como visto em “Não passa esse batom vermelho”, uma ciranda de histórias de mulheres abusadas, com um fim lacunar, intencionalmente suprimido. “Para vidas simples não se erguem mausoléus” segue o mesmo estilo, mas, ao contrário do anterior, não é bem executado. O mais fraco do livro.

À medida que se aproximam as últimas páginas, alguns temas começam a se repetir, no entanto o autor supera essa sensação paramnésica com soluções estéticas que dão variedade ao formato de suas narrativas. “Três meia zero” é uma bem montada estrutura de puzzle e ecos. Ao passo que o ótimo “Manequim”, armado em curtos episódios, traz a visão de um narrador fantasma, testemunhando o impacto de sua morte na construção do luto entre seus pais.

O volume se encerra com “O homem faz o que é preciso”, um conto narrado por um sujeito que expõe o drama de um amigo falido, que toma medidas extremas para sustentar os filhos. E, de modo geral, representa o caráter dilacerante do compartimento de histórias, no qual personagens se brutalizam ou são brutalizados por um mundo desestabilizado e errático, sem esperança ou temente a um tipo de deus que provém da carnificina.

 

 

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Livro: Sangrem os porcos, depenem os frangos

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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