Vozes de resistência feminina

Os primeiros tateios de Tudo que morde pede socorro dão conta de uma escrita sinestésica.

Com um olhar guiado pela memória, a narradora, que volta à casa onde nasceu sua mãe, num município bucólico de Minas Gerais, experimenta sensações formuladas pelo cruzamento de sons, cheiros e imagens, assimilando o vivido e fermentando a nostalgia entre o lúdico e a lucidez.

Há uma tarefa de recriar o passado, com uma certa ternura, uma poesia intuitiva, de modo a evocar elementos familiares que tornem essa mudança mais suave.

Porém as reações imediatas dos habitantes é de estranhamento, uma dose de incômodo para com sua aparência, a deformidade do braço esquerdo mutilado. O que carrega marcado no corpo é desconcertante demais para esconder no fundo perdido do tempo, enterrar e imaginar que algo floresça daí.

Assim, solvendo o verniz de placidez para nunca mais retomar, Leonora, a protagonista desse romance impactante e fundamental da carioca radicada em Brasília Cinthia Kriemler, não vai demorar muito para revelar ao leitor que seu retorno não se trata de um movimento de transição, e sim de adaptação.

Uma nova vida, depois que o acidente de carro a amputou. Antes era professora de escola, agora, devido às limitações, trabalha com traduções literárias. Antes também era casada com Mateus. Que logo implicou com pequenas coisas, começou a reclamar de tudo, depois vieram as humilhações, os empurrões, as surras, os estupros.

Leonora busca um refúgio, um repouso onde combine liberdade e solidão, “uma fuga – e mais nenhuma”.

Passa a frequentar um mercadinho, onde conhece D. Conceição, que indica a filha Francisca, para lhe ajudar na casa. Nessa mesma ocasião, é ainda apresentada ao jovem Fazal, imigrante afegão que se instalou no Brasil, desgarrado pela guerra, e agora vive sob proteção da senhora.

Os primeiros dias, então, fluem no avanço da tradução de um livro de Benoîte Groult, autora francesa dotada de “uma escrita feminista instigante”. Até que um dia a ajudante não aparece para trabalhar e, ao investigar o motivo, dá de cara com uma porta com acesso a demônios do passado.

Francisca também é uma vítima de violência doméstica. O marido, bêbado, a mantém trancada em casa, sob pancadas. Leonora intervêm de forma radical, consegue tirar a mulher da condição de refém. Porém, ela não é a única vítima. O casal tem dois filhos. E o que se passa com a adolescente Paula Regina é monstruoso.

Cinthia dá forma a uma trama articulada numa chave de denúncia e de conscientização, de modo a promover associações entre ocorridos do passado e do presente, entre realidade e imaginação, para explicitar os casos contínuos de abusos contra a mulher; a objetificação, o descaso, a discriminação, o feminicídio.

Para isso, lança mão de um fazer literário que estabelece um fio narrativo dentro do universo ficcional, embora traga para o lugar de fala de sua protagonista dados técnicos, informações de caráter instrutivo, algumas vezes transmitidos de forma didática, opinativa e/ou reflexiva, contudo sem que destoem do andamento da história.

Leonora é uma voz que ecoa milhares de outras dentro e fora do romance, tendo a ficção como canal ao mesmo tempo que painel representativo. O drama que lhe consome sintoniza ao sofrimento de Francisca, de Paula Regina, e faz soar relatos de vítimas que permanecem em silêncio por medo, por insegurança, por falta de assistência.

E, que fique claro, não se resume a um gênero e a um tipo de agressão. Mais à frente, o passado de Fazal vai expor uma prática degradante. Outra personagem vai relatar os problemas de viver da prostituição e, nesse ponto, o enredo introduz um novo paralelo, trazendo à tona o debate sobre escravidão.

Chegam ao conhecimento da protagonista documentos antigos, páginas do que seria o diário de Anna Bonifácio, negra alforriada no início do século XX, que descreve o tratamento desumano aplicado aos escravos, em especial às mulheres, num panorama histórico-social de covardias e maldades no qual o suicídio desponta como única fuga.

Os excertos raros criam um contraponto com a história real de Nhá Chica, descendente de escravos que dedicou a vida à caridade e foi beatificada pela Igreja Católica, em meados dos anos 2000, expandindo a problematização do tema, ao confrontar a face do antes e a do agora, de forma a apontar métodos de escravidão moderna através da opressão sexual, da condenação religiosa, de mecanismos oniscientes de taxação de pecados que convertem em tabu assuntos como desejo, aborto, homossexualidade, incesto.

Desse modo, inverte-se a bússola moral e subverte-se o senso de lógica, tornando vítima em culpado, agredido em motivo para justificar a agressão, retroalimentando tragédia com mais tragédia, num ciclo de desacertos, autoenganos e dor que sincroniza declarações de resistência de uma escritora francesa, na década de 70, de uma mulher escravizada, na virada dos anos 1900, de uma mulher mutilada, no tempo presente, de uma menina violada para sempre.

Tudo que morde pede socorro é um livro atual pela maneira que aborda seus temas, embora não seja atual pelos fundamentos de seus temas. Uma obra mesclada, repleta de vozes e pedidos de ajuda, que deveria ser integrado a toda iniciativa institucional de assistência à mulher violentada de qualquer jeito, caso o atual governo não pensasse que (sic) mulheres nasceram para ser mães e que o modelo ideal de sociedade é deixá-la apenas em casa, sustentadas pelos homens, que (sic) mulher nasce para ser mãe e infelizmente tem que ir para o mercado de trabalho, que (sic) dentro da concepção cristã, no casamento, a mulher deve ser submissa ao homem.

Cinthia Kriemler entrega um romance com a força de um manifesto ao mesmo tempo que com a delicadeza de um conselho. Literatura necessária.

 

 

***

 

 

Livro: Tudo que morde pede socorro

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

2 comentários sobre “Vozes de resistência feminina

  1. Sérgio, agradeço demais! Além de captar todas (todas mesmo) as nuanças do livro, você enxergou além: um sentido de manifesto e de conselho. Estou imensamente feliz e honrada! Obrigada mesmo! Beijão ❤️

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