Travessia por um inventário de ecos

Arquivo das crianças perdidas é um livro sobre movimentos e ruídos.

A mexicana Valeria Luiselli dá forma a um modelo vicinal de romance de estrada articulado por meio de progressões e digressões, por um senso relativo de escolhas estéticas aplicado numa tessitura multifária, errática, que se esgarça por fronteiras de gênero, recompõe-se e retoma caminhos que espelham realidade e ficção.

A esse trânsito sinuoso impõem-se vozes múltiplas, uma série de personagens que são testemunhas e agentes do seu tempo, do tempo corrente, empreendendo uma travessia na qual se constitui um catálogo de imagens, de documentos e de sonoridades, registros e ecos da história coletiva e da memória particular.

Quem conduz a trama é um casal e seus dois filhos – um menino de 10, e uma menina de cinco anos. Ambos são frutos de relacionamentos anteriores, mas agem como irmãos de sangue, atados a um forte elo fraternal. O homem e a mulher, ao contrário, passam por uma crise no casamento, que disfarçam das crianças. Desse modo, o propósito da viagem de verão, atravessando os Estados Unidos de carro, de Nova Iorque ao Arizona, responde a sentidos e a resultados implícitos e explícitos.

No que se refere à clareza dos fatos, estão indo a trabalho. Ele, um documentarista de som, pretende ir até a fronteira do México de modo a levantar material para um projeto sobre os fantasmas de Gerônimo e os apaches, últimos nativos americanos a se renderem ao colonialismo. Ela, uma jornalista envolvida com o drama de uma imigrante mexicana cujas filhas foram pegas cruzando a fronteira e estão num centro de detenção, planeja produzir um documentário sobre a migração clandestina de crianças.

Desde que se conheceram, trabalharam juntos em projetos relacionados ao registro de sons e de dialetos. A decisão de aspirarem novos planos, embora guiados para um mesmo destino geográfico, denuncia a fratura iminente. Outro sinal é a forma com que separaram seus itens de viagem.

Sete caixas, depositadas no porta-malas – três, do homem; duas, da mulher, e uma, para cada criança. A organização será usada como modelo para a estruturação do livro, no qual os capítulos se dividem ao feitio de pastas de arquivo, de maneira a relacionar o curso dos acontecimentos com os conteúdos (ou a ausência de) das caixas.

De forma mais abrangente, esse sistema semântico irá repartir o romance em duas partes, de acordo com o câmbio inesperado da posição da fala. A princípio, a perspectiva da história é a da mãe, que conduz a trama até certo ponto, onde ocorre uma virada de chave e outra voz assume o comando, mudando o formato narrativo.

Luiselli flerta, em vários momentos, com o exercício da autoficção, sugerindo a influência da própria memória, em especial quando lança um olhar apurado sobre maternidade e matrimônio, explorando um circuito de aspectos físicos e existenciais com uma sensibilidade que se converte em estudo da vida doméstica, ora empírico, ora filosófico.

Outro recurso utilizado pela autora para fornecer dimensão psicológica a seus personagens é o mecanismo da intertextualidade, pelo qual escritores clássicos e trechos de livros, pedaços de composições e músicos, são evocados para retratar variações climáticas e os altos e baixos emocionais dos atores da trama.

Postos entre os componentes narrativos, são bem pensados afastamentos da costura monocórdia de estrada, parada em hotel, estrada de novo até a próxima parada. Ao longo dessa sequência, o rádio do carro reverbera notícias da política Trump no combate à migração pela fronteira com o México, o drama das crianças detidas e separadas dos país. Ao incorporar o assunto a seu enredo, Luiselli adota um tom ensaísta, oferecendo uma experiência de leitura próxima da informação de jornal.

No entanto, se há o interesse em propor uma escrita volátil, as associações são consistentes, emblemáticas, e dão conta da ligação entre passado e presente, mostrando como a aniquilação do povo apache, o mito de Gerônimo, a luta pela terra, a migração na fronteira e o sonho americano fazem parte de um mesmo ciclo, um ciclo que indica um futuro no qual se repetirão as mesmas violências, as mesmas mortes, as mesmas posturas tirânicas, os mesmos derrotados.

Com isso, o romance se permite um tratamento alegórico, a representação de um país na configuração de uma família latina, cujo ato derradeiro será a vivência do que antes era eco, criando um experimento denso, complexo, condizente ao tempo e ao lugar em que está o processo histórico-social a que vai corresponder.

Parafraseando a canção de Caetano, ao fim, tudo em volta está deserto.

 

 

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Livro: Arquivo das crianças perdidas

Editora: Alfaguara

Avaliação: Bom

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