Um romance de (de)formações

As margens do paraíso, de Lima Trindade, é um romance ambíguo, pois, aos olhos do tempo em que é narrado, pode ser descrito como uma história sobre utopias e mutações profundas, ao passo que, aos olhos do tempo atual, pode ser classificado como uma narrativa distópica.

Esse efeito de dubiedade se dá em função da maneira como o autor brasiliense articula, com proposital esgarçamento, os componentes que dizem respeito tanto à arquitetura quanto ao aspecto temático, na formulação de um painel histórico-ficcional através de uma estrutura movediça e fractal.

São três linhas narrativas que se alternam de forma contínua e paralela, até, em determinado momento, convergirem-se para um mesmo espaço-tempo. Tal processo decorre de uma ação vinculada aos conflitos e contrastes que mobilizam os personagens, dando ao livro a qualidade de um romance de formação; ou de um romance de geração.

Atentando-se separadamente a cada uma dessas vozes, a primeira narradora é Leda, uma jovem agregada à família de um político, de quem recebe moradia e comida, em troca de uma rotina dura de afazeres domésticos e submissão. A história se passa em Juazeiro, município da Bahia, e sofre intervenções de lembranças, na qual a personagem visita o passado no qual vivia em harmonia numa fazenda com o pai e os irmãos, até um fato drástico ocasionar a quebra desse laço e sua partida.

A segunda linha tem endereço no Rio de Janeiro, e acompanha Rubem, um estudante boêmio, que também trabalha num terminal de passagens, e gosta de frequentar o antro da malandragem carioca, onde acaba conhecendo uma dançarina e se apaixonando perdidamente. Paralelo a isso, ele recebe cartas de seu primo Mauro, que foi mandado ao cerrado de modo a acompanhar a preparação do nascimento da nova capital do país.

O terceiro narrador é o adolescente Zaqueu, filho de um grande empresário de Anápolis, em Goiás, superprotegido e reprimido pelo pai, que, ao integrar um clube de futebol de botão, faz amizade com um jovem em situação financeira inferior, levando-o a uma outra perspectiva de mundo, que se desfaz abruptamente por conta de um acontecimento sombrio que altera as nuances de sua conduta e suas ambições para o futuro.

Todos vivem o fim dos anos 1950, no qual o Brasil passava por uma temporada de otimismo e de transformações, alavancada por circunstâncias sociais, culturais e econômicas de prosperidade, tendo como símbolo máximo a edificação de Brasília, uma cidade utópica, inventada pelo sonho dos homens. (Para o bem e para o mal).

Essa, pode-se dizer, é a primeira camada, no qual o texto vai combinar fatos, registros e composições imaginativas, de modo a desenvolver essas tramas de forma independente, estabelecendo uma narrativa coral, onde o câmbio das vozes dá tração ao andamento e serve de norte até o instante em que as histórias acabam por se encontrar.

Chama atenção também como certos personagens secundários têm a função de dispositivos para se vislumbrar o que está além dos limites do enredo, valendo-se de insinuações para que o leitor faça, inevitavelmente, tais relações lógicas. É o caso do grupo de alunos que promovem discursos e propagam ideais na escola de Rubem, sugerindo o que seria o movimento estudantil anos à frente, quando o país entraria numa ditadura militar.

Trindade acerta a mão, em fundamentos importantes. Por se tratar de um romance polifônico, há um cuidado especial com a linguagem, atentando-se à fala de cada narrador, de modo que se configure uma distinção vocal entre eles por meio de timbres, ritmos e sotaques.

(O pecado, a meu ver, seja a utilização de certas expressões e gírias que soam estranhas à época em que ocorre a história).

Outro trabalho que salta aos olhos é a habilidade em destacar o contorno psicológico dos personagens, para que se possa explorar o campo subjetivo no qual se processa os dramas que terão consequências diretas em suas vidas físicas, seus destinos. Da busca pela independência à fuga de um crime, o peso da humanidade será a bussola (moral) de seus caminhos e o que determinará aquilo que se tornarão mais à frente, o futuro depois de um breve salto de tempo.

Brasília, então, passa a ser o centro e o eixo que irá tensionar esses fios avulsos e tramá-los num tecido denso, complexo, no qual irá se instaurar a segunda camada do livro, aquela que corresponde aos signos, às metáforas, às chaves de representação.

Fica explícito o propósito do autor em usar os três protagonistas para retratar as classes sociais, do mesmo modo que as circunstâncias que irão uni-los vão desenhar um contexto que perdurará até os dias de hoje, forças ocultas (e rivais) que influenciarão governos até ganharem foco no maior escândalo político do país.

É o ovo da serpente que nasce junto à cidade-monumento inventada para ser a imagem da lisura e do crescimento nacional. Um paraíso perdido.

 

 

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Livro: As margens do paraíso

Editora: Cepe

Avaliação: Muito bom

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