Memórias de um amante traído

Na tarde do dia 30 de setembro de 1908, um cortejo formado por intelectuais, representantes de órgãos de imprensa, membros da elite e populares seguia um carro fúnebre, conduzido por cavalos pretos de raça e cocheiros elegantemente fardados. A comitiva, que acabara de deixar o edifício Silogeu, no Centro do Rio, ainda teria a inusitada presença de uma banda com tambores, trompetes e flautas, marcando o ritmo da procissão até o cemitério São João Batista.

Ali ocorreria o enterro de um cidadão ilustríssimo. O maior escritor brasileiro, Machado de Assis. Horas antes, durante o velório realizado no prédio supracitado, sede da Academia Brasileira de Letras, Rui Barbosa, um de seus membros fundadores, proferiu as seguintes palavras em homenagem ao então presidente da instituição:

Não é o clássico da língua; não é o mestre da frase; não é o árbitro das letras; não é o filósofo do romance; não é o mágico do conto; não é o joalheiro do verso, o exemplar sem rival entre os contemporâneos da elegância e da graça, do aticismo e da singeleza no conceber e no dizer; é o que soube viver intensamente da arte, sem deixar de ser bom.

Contudo, enquanto muitos choravam e exaltavam a grandeza do morto, um senhor, sustentando o próprio peso numa bengala, registrava o evento com um misto de desgosto e satisfação. Na mirada de uma birosca, aos goles de conhaque, ele praguejava contra a ênfase dada à cerimônia, contra todos aqueles que não tinham consciência de que “Joaquim Maria Machado de Assis não passava de um leviano”.

Logo, ele teria a companhia do jornalista e amigo de longa data, Sílvio Romero, o único que toma parte da mesma aversão pelo escritor. O senhor declara que está ali para denunciar Machado, que “não pode ficar calado, enquanto canonizam o patife”.

Romero pede prudência, pois, naquele momento, ele só passaria por bêbado ou por louco, e lhe sugere contar sua história por meio de um livro de memórias. “Não sei se conseguirei”, responde. “Estou velho e com a vista embaçada”, complementa.

Mas, depois de findado o sepultamento e com a chance de o escritor ser eternizado sob o vulto de glórias, ele decide dar ouvidos ao amigo e escrever sua biografia. Seu nome é Pedro Junqueira, e a revisão deste passado, da tenra infância a terceira idade, dará forma a O homem que odiava Machado de Assis, do potiguar José Almeida Júnior.

Em seu segundo romance, depois de o premiado Última hora, cuja trama de intrigas envolvia o magnata da imprensa Samuel Weiner, o cronista Nelson Rodrigues e um jornalista falido às voltas com o governo Vargas, o autor volta a hibridar realidade e imaginação, de modo a reconfigurar a História e articular relações entre personagens oficiais e inventados, alterando sutilmente o rumo dos fatos como conhecemos através de uma licença obtida pela chave ficcional.

A rivalidade e a partida

Aqui, estamos no Brasil dos anos 1800. Em pleno reinado de Dom Pedro II, um menino, que acaba de perder a mãe, vítima da tuberculose, é levado por seu pai, de São Paulo, para morar com a tia materna, Dona Maria José, numa chácara no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Pedro tem seis anos e será deixado ali, a contragosto, pois seu pai precisa fazer a viagem de volta o mais breve, de modo a cuidar de seus negócios envolvendo o ramo cafeeiro.

Logo, entre a rigidez da tia, a autoridade de um padre e um ambiente movimentado pela mão de obra escrava, ele vai se relacionar com outras duas crianças, que também estão sob os cuidados da dona da propriedade: Joana e Joaquim, ambos mestiços, com temperamentos distintos que irão refletir na conduta do novo hóspede.

Por meio de ciladas e traquinagens (que, com o tempo, serão recíprocas), os meninos vão firmar uma rivalidade sem trégua, que dá indícios de que irá mudar de motivação quando os primeiros sinais de puberdade chamam atenção de ambos para as novas curvas de Joana.

Nesse tempo, porém, o pai de Pedro retorna e comunica ao filho que ele irá estudar em Portugal, na faculdade de Direito de Coimbra, com vistas em se tornar político no Brasil. Nesse tempo, também, Joaquim começa a escrever seus primeiros poemas.

Meses depois, passando férias na casa dos tios, em Porto, e já com o pai estabelecido como fazendeiro e empresário do café, Pedro passa a assumir uma atitude de bon vivant. Torna-se amigo do pianista Artur Napoleão e, durante um baile, conhece Carolina Novais, tira-a para dançar, mas bruscamente são interrompidos por Miguel, um sujeito agressivo, que impede de a irmã se relacionar com qualquer pretendente, sob a desculpa de que quer protegê-la.

Pedro, no entanto, encanta-se pela moça e, com a ajuda de Napoleão, trama um plano para conquistar a família, prometendo ajudar um irmão de Carolina com sérios problemas no Brasil. A estratégia funciona, os pais abençoam o noivado, porém algo imprevisto ocorre e as histórias de ambos traçam um movimento contrário. Por um tempo.

Recriação da experiência pessoal do passado

Com exceção do protagonista, todos os nomes mencionados são de figuras reais. Basta uma pesquisa rápida (ou o conhecimento da vida de Machado de Assis), para dimensionar suas importâncias e como o destino de suas escolhas irá determinar os rumos da trama.

Almeida não tem a intenção de dar forma a um mash-up (a transfusão de um gênero inusual num enredo consolidado), de maneira a converter o registro oficial em paródia, e sim criar uma mise-en-scène no qual diálogos, interações e circunstâncias são imaginados, manipulando as peças do passado sem que o trânsito modifique o quadro final.

Não é tarefa nada fácil e requer uma pesquisa muito pesada, entretanto o autor demonstra um domínio técnico impecável para que isso nunca se transpareça no texto. A narrativa tem um andamento fluído, por meio de encadeamentos macios de episódios, prazeroso de se ler, mesmo quando contextualiza o cenário político da época, enredando seu protagonista no intenso embate partidário pela libertação dos escravos, no qual este trabalha para o próprio Joaquim Nabuco.

Há um outro fator determinante para quem constrói um romance histórico: o poder de imergir o leitor na época que está sendo abordada. E Almeida tem uma habilidade quase que intuitiva de acertar nesse ponto, precisando de poucas composições visuais e elementos temporais, para posicionar o fio da leitura na realidade do Brasil imperial, com seu ambiente social específico, arquitetura, caracterização de personagens e, sobretudo, recriação da experiência pessoal do passado.

Inspirado num drama pessoal?

A diferença essencial deste romance em relação ao primeiro, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, é o uso da intertextualidade como ingrediente de composição. Ao mesmo tempo em que transita pela biografia de Machado de Assis, o autor também bebe dos livros do Bruxo do Cosme Velho para constituir os principais eixos do romance.

Armado por meio de um conjunto de peripécias envolvendo conflito familiares, armadilhas sentimentais, plágios e traições, o conflito central do livro se baseia no seguinte dilema: teria Machado de Assis se inspirado num drama pessoal, para compor um de seus romances mais celebrados?

A resposta (neste caso, felizmente) não deixa dúvida, e serve bem como condutor de tensão até o parágrafo final. Sem a possibilidade de alterar personagens alheios, o gatilho argumental é a liberdade de transformar o criador desses personagens num personagem bem distinto daquele imortalizado pelo tempo.

Machado é mesquinho, bajulador, arrogante, violento e, heresia!, um mero usurpador de ideias alheias. Por outro lado, é o primeiro livro a tratá-lo corretamente como mulato.

A vida nem sempre imita a arte, Almeida parece dizer. A arte, às vezes, imita a própria arte, que é, de fato, a vida reimaginada ou a vida como deveria ser.

 

 

***

 

 

Livro: O homem que odiava Machado de Assis

Editora: Faro Editorial

Avaliação: Muito bom

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