O fantástico em terreno árido

Conta a história que, no ano de 1903, o uruguaio Horacio Quiroga ingressou numa expedição às ruínas de Misiones, no norte argentino, de modo a afastar da memória o acidente no qual causou a morte de um amigo, ao manusear um revólver.

Sua função era de registrar a aventura, contudo, ao se deparar pela primeira vez com a selva, um fascínio lhe tomou por completo, tornando a experiência tão marcante que, meses depois, ele decidiu se transferir para a região, abraçando o desolamento, a solidão, a caudalosidade do rio Paraná.

Ali tentou o plantio de algodão, porém seus esforços falharam. Paralelamente ao trabalho com a terra, escrevia. Contos. Narrativas enfeitiçadas pelo assombro da mata sem fim e por traumas insepultos. Daí, surgiu a compilação El crimen del outro. Livro que já trazia sinais de sua escrita árida e temas instilados no sombrio da natureza humana.

A morte, desde então, passou a ser uma constante. Tanto na ficção quanto na vida física.

Quiroga voltou para a cidade, casou-se, teve dois filhos e, uma década depois, sua esposa se suicidou. O impacto da luto o levou (outra vez) a compor sua antologia mais celebrada, Contos de amor, de loucura e de morte, relatos breves nos quais o homem está sempre em confronto com esse espectro mortiço, em circunstâncias concretas e metafísicas, tendo a selva argentina enigmática como cenário, como influenciadora até da forma com a qual separava os vocábulos para alinhavar suas tessituras.

Foi assim, até também tirar a sua vida. Um escritor de fantasmagorias e terrores diversos. Contudo, essa ideia de que a literatura do uruguaio se definia por ocorrências da morte foi contestada pelo crítico argentino Pedro Luis Barcia, no estudo acadêmico Los desterrados, de Horacio Quiroga.

Segundo Barcia, o tema medular do conto de Quiroga não é, como se afirma habitualmente, a morte, e sim a perplexidade do homem em enfrentá-la. E complementa: Mais ainda, é a resistência tenaz do homem que reconhece que morre, e nega essa ideia; é a não aceitação dessa consciência.

Por isso os textos de Quiroga são inclassificáveis em aspecto, por isso é um autor que desafia toda a espécie de rótulo. Assim, não é raro encontrar seus contos em antologias de horror, de fantasia ou de literatura fantástica. É algo que cabe perfeitamente num gênero, sem de fato sê-lo.

Veio-me à mente manifestações de leitura de Quiroga, logo que finalizei o primeiro conto de Carapaça escura, estreia na ficção do recifense Frederico Toscano. A breve coletânea é composta por dez narrativas que se colocam na fronteira entre o fantástico e o horror, usando o sobrenatural, muitas vezes, como chave alegórica.

Mais ainda: o autor tem sempre a sua cidade como pano de fundo, em suas características naturais e arquitetônicas, em sua geografia dividida entre o tradicional e o moderno. O mesmo ocorre com o estilo, que transita entre a fala universal e o regionalismo marcado pelo alto poder imagético e uma firula linguística de recorrência lírica.

Com isso, o elemento insólito aparece não no modelo arcaico-sertanejo visto, por exemplo, nas histórias primárias de Guimarães Rosa, e sim no cotidiano urbano, no qual o fantástico se infiltra na realidade como um componente de desconcerto, todavia sem nunca subverter a lógica do mundo como a conhecemos.

Vide o conto supracitado, “Isca viva”, que abre o livro. Um coronel reformado pesca à noite, quando escuta um choro de criança misturado a um borbulhar vindo das formações rochosas embaixo do calçadão. Ou “Menino sem olhos”, que vem em seguida, sobre um menino solitário que brinca de arremessar sua bola contra uma parede semicoberta de escuridão, até se dar conta de que aquele desenho de sombras abriga algo que vai além da compreensão humana.

Voltando a Quiroga, a morte (ou melhor, as facetas da morte) é uma contante em todos os contos. “Cabidela”, o de teor mais regionalista, narra a rotina castigada de uma mulher que engorda e mata galinhas para preparar quentinhas, às voltas com o marido preguiçoso e adúltero.

A certa altura, é impossível não fazer uma associação direta com “A galinha degolada”, um dos textos mais conhecidos do autor uruguaio. A diferença está na forma com a qual Toscano retrata a violência: menos gráfica, penetrante, ao sabor da sugestão que direciona a perplexidade do confronto com a morte para o leitor.

Tal construção chega ao seu melhor acabamento, no conto que empresta nome ao livro. “Carapaça escura” é um tipo de terror psicológico, sobre um homem submerso num rio dentro de um escafandro que passa por um drama morrediço. As frases são inchadas, caudalosas, uma amarração densa que produz a sensação de sufocamento.

O sobrenatural regula as narrativas seguintes, no entanto são ruins, bem abaixo da qualidade das demais. “Brinca comigo” traz um tom de fábula, envolvendo brinquedos antigos e crianças hipnotizadas pela luz dos tablets, que tenta passar uma mensagem que não funciona. Ao passo que “O abismo no céu” tem um aspecto pictórico-apocalíptico, ilustrando uma personagem à beira do colapso, como que inserida numa tela do holandês Hieronymus Bosch.

Felizmente, os contos seguintes retomam o prumo e, com a força de personagens que apreendem o mundo através de uma visão infantil, as histórias derradeiras ganham camadas mais reais, a despeito de não se desquitarem desse eixo onde tudo o que é matéria viva parece se dissolver quando absorvida pela esfera do horror infinito.

Carapaça escura, de um modo geral, é um bom debute. E coloca seu autor como um dos integrantes desse círculo de novos escritores nordestinos que estão reimaginando a literatura fantástica. O sertão (e sua mitologia regional) é a selva de Quiroga.

 

 

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Livro: Carapaça escura

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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