Um puzzle de tramas movediças

Autor vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, o santista Alexandre Marques Rodrigues aposta num radicalismo estrutural em seu terceiro livro. Porca se configura através de fragmentos textuais que se movem dentro dos limites paginados na dinâmica de um quebra-cabeça cujas peças devem se encaixar ou não.

Funciona da seguinte forma: enquanto o enredo principal se desenvolve numa coluna maior, um outro enredo corre em paralelo, numa coluna menor que ladeia esse trecho central feito um bloco de notas. Ora as histórias funcionam de maneira independente, ora elas se cruzam por conta de uma solução narrativa ou de um elemento em comum.

Em dado momento, a arquitetura se espelha, de maneira fascinante, descrevendo uma cena na coluna principal, ao passo que a coluna menor articula simultaneamente essa mesma cena, porém sob um outro ponto de vista. Com isso, o romance permite inúmeras possibilidades de leitura e de entendimento.

No que tange o protagonismo, pode-se dizer que Bernardo, Marie, Roberto e uma personagem nomeada pelo pronome Ela compõem o elenco medular. Eles se revezam na condução de episódios que nunca se fecham, alimentando um senso de conflito que vai se agravando até o processo de encaixe possibilitar uma percepção total.

Bernardo é um livreiro, obcecado por clássicos universais, que trabalha na livraria de uma velha a quem chama de Porca. Certo dia, ele é surpreendido pela entrada de Marie no estabelecimento, por quem guarda uma paixão platônica trazida da adolescência num lugar indefinido denominado Ilhota.

Ao contrário dele, ela foi estudar fora, formou-se pesquisadora, casou e conseguiu um bom emprego no Governo Federal. Atrapalhado e constrangido, Bernardo a convida para um jantar em seu apartamento, com a promessa de cozinhar para ela e, mesmo sendo um tiro no escuro, a amiga aceita.

O que ele não sabe é que Marie trai o marido continuadamente, inscrevendo-se em congressos e palestras Brasil afora como passe para o sexo casual. Num desses eventos, conhece Roberto, também casado e também um adúltero contumaz. Ambos desenvolvem um compromisso, até a coisa ceder a uma inesperada ruptura.

Roberto não se satisfaz apenas com uma amante. Precisa trocar de mulher, quanto mais jovem, melhor. Então Ela surge em sua vida, e ele se apaixona cegamente. Compra presentes, flores, frutas. Fantasia. Até o marido dela confrontá-lo, girando uma chave que irá deixar mais evidentes os contornos que conectam essas histórias.

Rodrigues retorna ao seu catálogo de estimação: personagens que agem como autômatos em busca de sexo, executando perversões, compulsões diversas de modo a alcançar um prazer fugaz que preencha seus vazios, seus fracassos, seus medos, seus autoenganos. Nessa coreografia de movimentos gráficos, há momentos de coito entre homem e mulher, homem e homem, homem e adolescente, e uma cena bem explícita e longa de bestialismo.

Depois do intangível Sérgio Sant’Anna, Marques é, hoje, o autor em atividade que melhor escreve cenas de sexo.

Outra característica própria do autor é a aplicação de uma erudição em seus textos, coexistindo, de maneira harmônica, um conhecimento elegante sobre literatura, música e artes plásticas, ao mesmo tempo em que narra uma transa do modo mais chulo, mais cru, mais obsceno.

Há, no entanto, uma diferença em relação a seus livros anteriores. Na acumulação dos acontecimentos, sobre a vida física e as perturbações do campo subjetivo, plana uma atmosfera de tensão indefinida, uma estranheza que aparece aqui e acolá, é mencionada por um ou outro ator da trama, sentida, mas que nunca se revela de fato. É como se algo superior aos dias terrestres tivesse se abatido sobre o mundo, uma sugestão de que há coisas fora da ordem, quiçá uma nova ordem estabelecida.

Esse flerte com a suspensão da realidade oferece um componente intrigante às linhas narrativas, que avançam de modo labiríntico, propositadamente truncado, completando com atraso uma informação fundamental ou mostrando ao leitor que a literatura, às vezes, só leva à literatura, nada mais, essa é a jornada.

Dito isso (e, aqui, é há uma controvérsia que escapa da análise crítica e desliza para o plano da opinião), penso que essa forte atração pelo tatear no claro-escuro, pelo que chama na surdina, quebra-se totalmente quando o autor decide explicar o-que-é-isso-que-ocorreu da maneira mais expositiva e autorreferencial pensável.

O bom é que essa conjunção satírica-distópica tem prazo curto e, ato contínuo, o enredo dá uma grande virada tornando-se um brilhante exercício de metalinguagem, que demonstra todo um domínio técnico, poder imaginativo e complexidade alusiva da prosa do autor. Prova disso está no capítulo em que dois personagens secundários, pais de uma criança doente de uma síndrome fatal, fazem sentir a derradeira relação entre eles, entre eles e a criança, entre eles, a criança e a doença.

Paradoxalmente em seu livro mais fragmentado, Marques entrega seu trabalho mais coeso. Um romance excelente, mas que, fique avisado, que não é para todo tipo de leitor.

 

 

***

 

 

Livro: Porca

Editora: Record

Avaliação: Excelente

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s