O avesso do homem soberano

É ambiciosa a proposta de O sagrado coração do homem, de Michel de Oliveira. Em sua segunda incursão pela forma breve, o escritor sergipano articula a ordem dos contos de modo a estabelecer uma identidade temática e, a partir deste aspecto total, explorar um argumento: a de que o macho alfa, soberano e inabalável, não passa de uma representação falsa.

Desse modo, o livro reparte seu espaço ficcional em duas frentes adestradas exatamente pelas teorias que perpetuam o homem como um ser superior: o criacionismo e o evolucionismo. Seja originário de um punhado de barro maleável ou de uma série de mutações e adaptações naturais, o alvo de todos os textos é a desconstrução da imagem do másculo perfeito, aquele criado à semelhança de Deus, o ser sem falhas, sem medo, sem frustrações, sem impotências.

Oliveira demonstra sagacidade na mesma porção que irreverência: o tom da prosa é acentuado por um humor ácido, ferino, astuto. A começar pela escolha da estrutura bíblica para espelhar e inspirar os contos. Entre “O velho novo testamento” e “O novo velho testamento”, as histórias avançam pelo Gênesis, Adão e Eva, Caim e Abel, Noé, o Êxodo, a Via Crucis, a Crucificação, a Ressurreição, o Apocalipse.

A grande sacada está em não se utilizar das circunstâncias tal como escritas na Bíblia ou de seus personagens, e sim se apoderar do contexto e trazê-lo para a vida moderna, na qual o conflito medular faz analogia às respectivas passagens sagradas. O conto “Adão e Eva”, por exemplo, versa sobre um casal que não consegue ter filho e decide visitar um abrigo para crianças abandonadas, em busca de uma provável adoção.

Defendendo a tese central, naturalmente a culpa da infertilidade é do homem. E os caminhos da trama revelam uma segunda camada, que estará presente na maioria das outras histórias: a crítica social manifestada através do elemento humano, em pensamentos e atos dissimulados. Passeio comovente. Todas disponíveis, em liquidação. Tonalidades entre bege e marrom escuro, para não dizer negro – afinal, negro é coisa pesada para se dizer de uma criança, reflete o narrador.

“Caim e Abel”, por sua vez, dá conta da rivalidade entre dois irmãos pela preferência da mãe, culminando numa explosão de violência. Ao passo que “Noé”, um episódio desencadeado por um golpe autoritário, trata da relação de um homem alquebrado e seu cavalo faminto, oferecendo um dos poucos desfechos sensíveis da coletânea.

A segunda parte propõe um novo circuito narrativo, alternando contos fechados a uma sequência de breves narrativas que simulam a Via Crucis, porém com a substituição da figura de Cristo pela figura ubíqua do macho. São tipos de tratados com fundos filosóficos, históricos e/ou científicos, que enxergam o homem pelo grau mais desnudo, mais obtuso, um animal de raciocínio fractal, impulsionado pelos instintos primitivos. O silêncio do homem não é de sabedoria, mas de vazio, pontua.

Tal costura de cenas mundanas e de alegorias visuais dão coesão a esse tecido em que se subverte o conceito de sagrado, quando atribuído à religião, ao homem, à humanidade, embora faça total sentido na condição de uma peça de sátira e mesmo de protesto canalizado pelos veios da ficção.

Não por menos, os contos que saem desse contexto (pseudo-)bíblico e se aproximam mais da ciência tornam-se muito destoantes dentro do conjunto. É o caso de “Teoria do Gene Fraco: a Síndrome do X Solitário”, no qual um geneticista lituano especula que o homem é, de fato, o sexo frágil. Estruturado no formato de um entrevista, o texto vai da análise do comportamento social até o argumento científico de que todas as raças são superiores ao homem branco.

Por mais que seja bem elaborado, a textura imaginativa do conto (?) é bem fina, e deixa transparecer que há a contaminação clara das opiniões do próprio autor. Com isso, deixa de ser um dispositivo ficcional que mira em cheio na realidade, e passa a ser um postulado crítico que se mascara de ficção.

Quando manipulam o barro, Oliveira e seu O sagrado coração do homem se saem bem melhor.

 

 

***

 

 

Livro: O sagrado coração do homem

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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