Confissões de um macho zeta

Não é fácil lidar com o conteúdo de Trago comigo as dores de todos os homens.

Não é fácil acompanhar a progressão do enredo através da qual se constrói esse espaço ficcional sem que o cérebro involuntariamente faça conexões com a realidade, com o plantel de casos atrozes que estampam os portais de notícias, as legendas dos programas policialescos, o nosso choque cotidiano.

Não é fácil ser testemunha de uma sequência de atos condenáveis, abjetos, descritos com uma normalidade espontânea, um tipo de decisão inevitável, natural, quando não narrada sem qualquer traço de culpa, de censura, apenas uma atitude guiada pelo desejo mais puro, a despretensão dos sentidos, o sexo e sua própria moral.

Não é fácil se acomodar na posição de leitor diante da novela do paraibano Roberto Menezes. É um livro incômodo, controverso, feito para dividir opiniões, sobretudo nos tempos atuais, sobretudo diante de uma bancada de séquitos da ignorância que não consegue (ou não quer conseguir) diferenciar o que é real e o que é imaginação.

Sim, é polêmico, mas se trata de ficção. Embora o mundo não pare de produzir ocorrências semelhantes, todos esses personagens são inventados. De modo que não é motivo de escândalo, mas de se reconhecer a qualidade artística do autor, a capacidade de sua escrita em causar contundência, em desconfortar durante a leitura.

Lembrou-me ao barulho recente causado pelo romance Canção de ninar, da franco-marroquina Leila Slimani, porém, aqui, com propósito. Trago comigo… tem um sentido narrativo deslizante, que se mostra quase que alheio aos tipos de perturbação que explora, desenvolvendo-se de maneira tênue e esgarçada.

Daí por ser impactante, pois não é orquestrado para se buscar o golpe. O conflito está no que segue, no que é fluxo. Num exercício figurado de comparação, é como se o Rubem Fonseca de Feliz ano novo tivesse escrito a sua versão de Memórias póstumas de Brás Cubas.

O personagem-narrador é um poeta de certo renome que se vê metido num imbróglio judicial relacionado a direitos autorais. Horas antes de entrar no tribunal, ele conhece a advogada Silvia, que irá defendê-lo, mas sem antes inflar sua libido de maneiras inarráveis para o horário familiar.

Menezes inicia seu livro de forma genérica e (enganosamente) aleatória. Soa como um daqueles batidos relatos bukowskianos, no qual o narrador alterna o discurso direto com uma soma de reflexões, transitando por zonas da mente povoadas por traumas, lembranças, visão hedonista de mundo e uma fieira de taras.

Fala sobre a vida, digressiona sobre a relação com o pai. Fala sobre seus vícios, digressiona sobre a negação da paternidade. Fala sobre o meio literário, digressiona sobre sexo.

Mas eis que o relacionamento com a advogada se estreita, e ele abandona tudo (inclusive a escrita) para assumir o posto de “macho zeta”. Seis meses depois, estava lá eu, morando com a toda-poderosa Silvia. Cozinhando para ela. Fazendo cafuné nela. Feliz da vida. Uma rotina com tom de espera, conta.

Então, de maneira imprevista, Márcia e Marcos, filhos adolescentes de Silvia, vão morar com eles, e a chave de enredo dá uma girada de 360º, levando a trama para um terreno de ações e intenções impróprias, reprováveis, que esconde, na última frase, uma reviravolta explosiva, impossível de antecipar.

Não por menos (e sabiamente), o livro não tem orelha. Quanto menos se souber da história, melhor. E, depois do baque, vale a pena repassar a segunda metade, de modo a pescar os indícios deixados pelo autor. É claro, se não tiver problema em reviver essa experiência.

 

 

***

 

 

Livro: Trago comigo as dores de todos os homens

Editora: Escaleras

Avaliação: Muito bom

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