Retrato da tortura no regime militar

Setenta, do gaúcho Henrique Schneider, venceu o Prêmio Paraná de Literatura 2017. O romance aborda o drama de Raul, bancário medíocre que é preso por agentes da repressão, depois de ser confundido com um dos militantes políticos que haviam tentado sequestrar um cônsul americano.

Encarcerado num dos porões do regime militar na cidade de Porto Alegre, ele é torturado durante nove dias, até ser libertado no domingo de 21 de junho de 1970, poucas horas antes da partida final da Copa do Mundo, na qual o Brasil disputaria o tricampeonato com a Itália.

Era um clima de euforia popular que (propositalmente) mascarava o período mais violento da ditadura. Com o AI-5 em vigor há pouco mais de um ano, os militares gozavam de poderes irrestritos, com os quais promoviam censura, prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e mortes.

Esse cenário, no entanto, aparece no enredo de Schneider de forma circunstancial ou incidental. Não se trata de um livro histórico-ficcional sobre a ditadura, e sim de uma narrativa de ficção que se passa (eventualmente) em meio a ditadura. Aliás, a palavra “ditadura” só vem a ser mencionada na página 65. A trama foca, de fato, no ambiente de tortura e de confinamento que arrebata o protagonista, e seus efeitos em suas constituições física e mental.

Sendo assim, o andamento narrativo se restringe ao tempo do cárcere e ao dia em que o personagem é solto, recuando e avançando em episódios que dão conta da brutalidade aplicada pelos agentes em busca de uma confissão. As únicas exceções são os breves capítulos em que a mãe de Raul ganha voz ativa, numa busca angustiante pelo paradeiro do filho nos quais implora por socorro numa delegacia, na redação de um jornal e na presença de um religioso que se tornaria um mártir simbólico do regime.

Aqui, é interesse observar como o autor referencia um acervo ficcional do tema (vide Batismo de sangue, de Frei Beto), ao mesmo que esse recurso alusivo acaba por amortecer certos aspectos da obra. Basta lembrar de Pra frente, Brasil, longa escrito e dirigido por Roberto Farias, cuja premissa é muito semelhante.

A força, nesse caso, poderia estar na construção do protagonista, contanto que se desse mais profundidade à sua vida para além da cela. No decorrer da leitura, fica evidente a intenção do autor em retratar a covardia e a violência dos torturadores, através de descrições detalhadas (há um capítulo inteiro reservado à didática da tortura) e de diálogos vilanescos, no entanto o uso de arquétipos acaba por descambar para a caricatura – de novo, em função da carência de um fundo histórico (particular e coletivo) mais robusto.

Afora o componente futebolístico e a citação a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo de luta armada de extrema esquerda, pouco ou nada se fala do painel político, social ou cultural da época. O autor até resgata chavões, frases de efeitos e memorabilia dos anos 70, porém são mal encaixados e soam como uma tentativa forçada de contemporaneidade, na ausência de um contexto mais amplo que dê a esses elementos naturalidade e identificação.

E nada tem a ver com a estrutura: K., de Bernardo Kucinski, é igualmente episódico e é o melhor livro de ficção sobre a ditadura no Brasil. Tudo por conta da capacidade de absorver o leitor para seu universo ficcional e fazê-lo acreditar que aquele simulacro de mundo contém as verdades do mundo real, o espectro daquele tempo.

Faltam essas camadas, a Setenta. Uma densidade atmosférica que sufoque, de fato; que provoque um imersão psíquica no clima de opressão, terror e insegurança que prevaleceu durante o regime militar, os chamados anos de chumbo.

Schneider aposta num retrato de desumanidade e vilania para dar dimensão a seu enredo naquilo que se faz explícito a partir de atos velados de crueldade. Porém, o impacto de um livro vai além do que o autor faz ver. Está, muitas vezes, no implícito, no inaudito que faz doer, que faz sentir.

 

 

***

 

 

Livro: Setenta

Editora: Não Editora

Avaliação: Regular

Um comentário sobre “Retrato da tortura no regime militar

  1. Apenas uma necessária correção histórica à crítica ao meu livro. A resenha menciona o encontro da mãe de Raul com “um religioso que se tornaria um mártir simbólico do regime” – no caso, frei Tito. No entanto, o personagem Padre Tito com quem ela fala é ficcional. Trata-se apenas homenagem meio transversa ao frei Tito real. Não poderia ser o verdadeiro – que, sim, se tornou um mártir simbólico da ditadura! – por duas razões: frei Tito não atuou em Porto Alegre (cidade onde ocorre o “Setenta”) e, no período em que a ação acontece, estava preso e sendo torturado em prisões de São Paulo.
    Grato,
    Henrique Schneider

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s