Afetos e lembranças de uma imortal

Escrever é o que sei fazer. Narrar me insere na corrente sanguínea do humano e me assegura que assim prossigo na contagem dos minutos da vida alheia, registra Nélida Pinõn num dos textos iniciais do volume de ensaios Uma furtiva lágrima.

Constituído de reflexões, observações do cotidiano, reminiscências e exercícios de escrita, o novo livro da imortal da Academia Brasileira de Letras usa a literatura como chave para a autora decifrar a si mesmo e ao mundo. Uma espécie de mapa com o qual se chega a um território particular em que se produz uma arqueologia de afetos, de leitura e conhecimento, de triunfos e perdas, do álbum de família.

Não se trata essencialmente de um diário de memórias, e sim de uma coletânea que tem a memória como fio condutor. O tempo é o moinho da vida, assegura-se a escritora. E, aos 81 anos, escreve com liberdade e vigor, dando forma a breves testemunhos nos quais exalta a existência física e as experiências subjetivas, num confronto contínuo com a finitude.

Em “Sentença”, por exemplo, rememora um período de angústia, no qual o diagnóstico de um câncer lhe condenou a, no máximo, um ano de vida. Pela primeira vez convivendo “com a ideia da partida”, reservou-se ao silêncio e ao desejo de que “o sofrimento não danificasse sua dignidade”, até que o veredito revelou-se equivocado. Quase três anos depois, estou bem. Resisti, vivo, penso. Imagino, sobretudo escrevo. Eis os segredos da vida, declara.

Nélida impõe uma dicção íntima, quase confessional, aos seus textos, narrando com elegância e delicadeza, embora suas frases transmitam potência e magnetismo. Tal domínio do fazer literário conduz o leitor em incursões pelo passado, em textos nos quais a autora visita a Galícia, terra dos seus avós, antes de buscarem exílio no Brasil, e a sua infância, no bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, considerado “seu feudo espiritual”, onde finca “as raízes familiares”.

O resgate da genealogia, no entanto, vai além de um mero reconhecimento de tradições, servindo de matéria para a composição de um emblema que lhe atribui identidade e ofício. Sou mulher, brasileira, escritora, cosmopolita, aldeã, criatura de todas as partes, de todos os portos, autodefine-se.

Nesses casos em que se encontra com a natureza de seus antepassados, os relatos adquirem características de fragmentos de histórias que, embora situados no espaço da observação, apresentam uma consistência literária na qual a realidade parece beber da fonte da ficção, onde verdade e imaginação insinuam em se cruzar.

Trata-se de uma matriz afetiva através da qual dialoga com os pais, certos familiares, amigos mortos, e eterniza o amor pelos cães Suzy e Gravetinho Pinõn, a quem dedica o livro in memoriam. Ainda nessa seara de sentimentos, Nélida homenageia escritores, reverencia obras que marcaram sua vida, e narra episódios saborosos, como o dia em que foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, num quase imbróglio envolvendo Afrânio Coutinho, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles.

Outros textos, com tonalidades academicistas, dão conta de reflexões sobre filosofia, teologia e mitologia grega. Fazem parte de um repertório que extrapola os limites da prosa livre, ganhando ares de manifesto e alvos certos, a exemplo do ensaio “Política”, no qual protesta contra os “atuais políticos provincianos, destituídos de grandeza”, incapazes de “interpretar a ânsia popular e de se antecipar aos sonhos coletivos ainda em formação”. São uns pobres-diabos revestidos de falsa magia, basta vestir a carapuça.

O ponto alto, contudo, compete aos textos de expressões mais densas e complexas, quando a autora olha para o fundo de si, em estudos anímicos no quais expõe suas fragilidades, seus anseios, seu cotidiano com a solidão, rivalizando a tudo com o escudo da escrita, com a força da literatura que a permite ser “múltipla, muitas”, ao mesmo tempo que única, singular. Uma senhora escritora, uma dama das letras. Um livro, enfim, que representa um legado.

 

*Texto originalmente publicado no jornal O Globo, em 27.4.19

 

 

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Livro: Uma furtiva lágrima

Editora: Record

Avaliação: Bom

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