O mito é o nada que é tudo

Quando situada na produção artística de Millôr Fernandes, a poesia é um gênero pouco frequentado pelo autor. São apenas três volumes integrados a um catálogo de centenas de títulos que abrangem a dramaturgia, as artes visuais, o roteiro cinematográfico, o romance e o conto.

Apesar disso, a leitura de qualquer um de seus poemas não deixa dúvida de que, como certa vez escreveu, “um mínimo de tamanho é documento”. As incursões líricas de Millôr reprisam o estilo singular de decodificação de mundo e construção de significados que lhes atribuíram identidade e originalidade.

Formulados a partir da irreverência e do humor em chave combativa, os versos apresentam uma postura sagaz de se debruçar sobre assuntos como convenções sociais, relações afetivas, memórias, observações do cotidiano, tecnologia e política; sobretudo política. “Se há governo, sou oposição”, dizia.

Um modo sutil, refinado e incisivo de contestar o estabelecido, a exemplo da estrofe final de “Saudação aos que vão ficar”, no qual brinca a sério de vaticinar o milênio. Quem morará no Brasil,/no ano dois mil?/Que pensará o imbecil/no ano dois mil?/Haverá imbecis?/Militares ou civis?/Que restará a sonhar/para o ano três mil/ao ano dois mil?.

De maneira quase intuitiva, o também carioca Henrique Rodrigues parece responder diretamente ao mestre, em Previsão para ontem. Com uma carreira estruturada em romances, contos e livros infantis, o autor volta ao gênero que o lançou, mostrando que o imbecil (militar ou civil) está bem vivo e sonha não com o futuro, mas com o passado.

Seus poemas demonstram uma apreensão de inúmeros estilos e formatos, oferecendo ao leitor amostras estéticas de um olhar sobre o que vem do cotidiano e de um painel movediço que mescla episódios biográficos com interpretações do tempo atual; o que inquieta, o que faz refletir e, principalmente, o que se deve contrapor.

São passagens da poesia tradicional – o soneto que obedece métrica – ao modernismo de Bandeira e de Drummond, sedimentos dispersos que desembocam na poesia visual, os poemas cinéticos, onde as palavras se deslocam na página em versos livres, sem metro, a liberdade de desentranhar o poético da prosa.

Rodrigues busca inspiração no corriqueiro, no banal e no particular, que utiliza como gatilho para explicitar que a situação social não é consequência de forças das circunstâncias, e sim de um movimento pensado por uma nova realidade política. Com isso, mais que uma expressão lírica, o autor se vale de uma dicção irreverente, astuta e, por vezes, cifrada, para impor sua atitude, trazer para o espaço da poesia uma aproximação entre verso e protesto.

PT saudações 2019/somos/todos/seminovos, retrata em “Re tiro carioca”, texto que abre o livro. “Banheiro de empregada 2019”, que vem a seguir, é mais enfático em seu alvo e em esclarecer como o alvo tem a capacidade de desmerecer a própria munição. pisa no freio, pisa//porque vem crescendo//um muro/um moro/um murro/um mourão//batendo mais continência que punheta//(…) daí a poesia/esse banheiro de empregada/que já não serve para nada.

Outros envolvimentos dão conta de uma poesia mais centrada no fundo humano, no qual o eu lírico divide atenção entre o drama do autor que tenta entender a si no mundo, ao mesmo tempo que se lança ao papel quase de um cronista de instante, registrando a vida, o bairro, a casa, a casa dentro da casa. Em “Tatuagem”, conclui: e eu também tento tatuar a lembrança do presente/no corpo rascunhado do meu tempo, para, mais adiante, evocar um vínculo entre sensação e vida física, materializando a percepção do momento através da experiência poética: saio de bicicleta e guio pela noite que é memória/ao longo de uma cidade inteira de vertigem, desfila em “Passagem de bicicleta”.

O tom de humor surge numa chave irônica, formulada com engenhosidade para explorar o debate social, mas também para subvertê-lo de maneira que o significado se contamine pela cáustica sem que isso lhe roube o sentido. “Empoderamento” parte da sintaxe para a retórica: Quem gostaria/De ser fagocitado pelo próximo/E ser locado num segundo plano,/Tornar-se uma cidade sem história?, ao passo que “O lugar de falo” é uma provocação com ar de molecagem aos discursos ideológicos à flor da pele: todo menino sabe como é grande o mundo/e o amor, que escapa ao coração/já se liga na palma da mão.

Rodrigues ainda remexe no componente biográfico, revendo, em “Elegia da passarela”, o passado como atendente do McDonald’s que usou como matéria para o romance O próximo da fila. O poema circula pela adolescência no subúrbio carioca, “o bonde expresso espalhando a todos pela cidade”, num contraste ao Rio de agora, o Rio do campo de batalha, da guerra entre policiais e traficantes que vitimiza crianças, balas perdidas que acham o caminho da escola. o brasil é o país do futuro/o brasil é o país do faturo//o brasil é o país que fatura/o brasil é o país de fratura//(…) o brasil tem idade de escola/mas prefere matar, matar aula, relata em “Poema de escola”.

A força do livro, de fato, está nesse exercício lírico mais incisivo, no qual os versos se ocupam de se rebelar contra os males da sociedade e seus malfeitores, fazendo do poeta um ombudsman do caos instituído por voto direto, a ode ao retrógrado que se sintoniza a uma das mais atuais frases de Millôr: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.

o mito é o nada que é tudo/o mito é o nada que é nada/o mito é um tudo que é nada/o mito é um tudo, quer tudo//o mito é um pouco, quer muito/o mito é um muito que é nada/o mito é um pouco que é nada/o mito é um muito sem muito, alitera Rodrigues, em “O Bolso ou a vida”.

Previsão para ontem é a primeira obra de ficção que se expressa abertamente sobre o governo recém-empossado. Que seja a primeira de muitas, em prosa e em verso!

 

 

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Livro: Previsão para ontem

Editora: Cousa

Avaliação: Muito Bom

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