O amor enquanto cerne temático

Se eu te amasse, estas são as coisas que eu te diria, terceiro volume de contos de Marco Severo, tem como cerne temático o amor.

São 14 narrativas que tratam de experiências pessoais articuladas a partir do impacto do drama afetivo na condução da vida física, ora narradas em tom intimista, próprio da história mental, ora descritas através de uma solução estilística tradicional, sob o ponto de vista do narrador que foca na ocorrência dos fatos e suas consequências para os atores da trama.

Apesar de multifário, é um tema muito arriscado. Desde Camões e seu poema “O amor é fogo que arde sem se ver”, incursionar por esse território requer domínio técnico e consistência sintática, caso contrário pode incorrer no mais vergonhoso clichê, no lugar-comum, no pieguismo.

Severo parece calcular o risco e, logo no conto que abre a coletânea, lança-se ao desafio. “Voragem” é o testemunho de um homem apaixonado por um adolescente vinte anos mais novo. O texto é galvanizado por um forte tratamento lírico, com frases que remetem a versos poéticos. Porém o autor demonstra segurança para costear o melodrama, sem nunca adentrá-lo, entregando um depoimento tão humano, que lembra a dicção de Giovanni, obra-prima de James Baldwin.

O conto seguinte, “Chegada ao local dos destroços”, dá continuidade a esse formato narrativo em primeira pessoa, com um timbre perto do confessional, de modo a contemplar momentos vividos com grande intensidade. Uma mulher, casada e com uma filha, constitui seu laço maternal por meio de cartões-postais enviados por uma mãe que a abandonou na infância, e passou a ser um desejo de reencontro sem endereço, sem data, sem corpo presente. O final é de uma beleza melancólica.

A diferença é que, aqui, a estrutura narrativa começa a construir arcos de tensão que, embora permitam desfechos abertos e afastamentos, dão ao conteúdo uma densidade novelesca. “Na imensidão, a procura”, talvez o melhor texto, tem a engenharia e a coordenação de componentes de enredo próprias de uma novela, construindo o personagem-principal, andando a trama em desdobramento de capítulos, indo num crescendo até chegar a um final que se compactua ao início. Admirável!

“Pássaro que sobrevoa a dor” segue esse mesmo modelo estrutural, tratando da formação (ou deformação) sexual de um menino, seduzido por uma viúva cinquentona e chantageado por um casal de amantes. Novamente é um conto repleto de camadas, desvios instantâneos do eixo central, mas que se completa no interior do protagonista. Severo trabalha com precisão uma fórmula instituída, embora com criatividade, com magnetismo na ordenação das frases, com um encantamento intuitivo.

“O rio que corre para dentro do mar” é o conto mais poético, sobre perda, autodescoberta e entendimento de destino; quase uma meditação lírica, outra vez de uma sensibilidade imponderável. “A ambição que cabe em cada lugar” retoma o protagonista como centro narrativo, acompanhando um errante morador de rua, um homem vazio de humanidade por conta de golpes da vida engatilhado em ruínas afetivas. Um enredo que esgarça o tempo presente de modo a se filiar a um tecido de recordações.

E assim, alternando vozes narrativas entre o fluxo de consciência e o relato objetivo, os contos vão ganhando coesão e identidade, compondo um livro que se contextualiza em espaços temático e geográfico equivalentes, nos quais tipos de diversas naturezas se relacionam por liames familiares, sexuais, pela vida ou pela morte. “Aprender a viver”, que encerra o volume, dá conta do convívio fraturado entre pai e filho, de onde brota um sentimento sem nome que, por incapacidade de descansar no outro, machuca a ambos.

Desde sua estreia na forma breve com Todo naufrágio é também um lugar de chegada, Marco Severo revelava sinais de um bom contista. Agora, com Se eu te amasse, estas são as coisas que eu te diria, o autor se mostra pronto, detentor de todas as ferramentas necessárias para a notável confecção do gênero.

 

 

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Livro: Se eu te amasse, estas são as coisas que eu te diria

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito Bom

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