Admirável novo mundo Frankenstein

Realidade alternativa é um dispositivo de enredo muito recorrente na cultura pop, sobretudo em obras integradas ou que bebem de alguma maneira da ficção científica.

Dos episódios pioneiros de Além da imaginação, passando pela graphic novel Watchmen até a recente animação Rick and Morty, esses tipos de criação subvertem acontecimentos, linhas temporais e ações e destinos de figuras públicas, de modo a redefinir o curso da História como a conhecemos, no escopo de um cenário estabelecido.

Na literatura, um dos exemplos mais notórios é a novela O homem do castelo alto, do norte-americano Philip K. Dick.

A trama dá conta de um mundo no qual os Aliados perderam a Segunda Guerra Mundial para as Potências do Eixo, e os Estados Unidos foram repartidos e entregues aos nazistas e aos japoneses. A partir daí se desenvolve uma espécie de Guerra Fria entre os dois impérios; Hitler morre de sífilis, mas seu sucessor segue com o genocídio das raças que considera inferior (a África é dizimada); e os alemãs se destacam na corrida espacial, criando uma agência aos moldes da Nasa. O inimigo insurgente é o autor do livro de fantasia que empresta nome ao título, cujo enredo imagina um mundo como se os nazistas tivessem perdido a guerra.

Dick constrói uma matriz distópica, de modo a montar uma versão da História que poderia ter sido a nossa, caso um dia específico se definisse de outra maneira.

Na realidade de Back in the USSR, do carioca Fábio Fernandes, a Segunda Guerra Mundial não teve vencedores e derrotados, pois nunca aconteceu. Houve a Grande Guerra, em 1914, que durou 10 anos e na qual o mundo acabou repartido entre a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a República de Weimar, formada por Alemanha, Luxemburgo e Áustria, onde se instala a empresa Ewigkeit, detentora da patente do Método Frankenstein de Ressureição®.

Popularizado durante a Guerra, o experimento foi criado pelo cientista Victor Frankenstein (como registado na biografia escrita por Mary Shelley) e tem o poder de reanimar cadáveres, criando um tipo 2.0 de zumbis. O domínio do procedimento dá à empresa o controle do mundo (e, por consequência, às suas nações filiadas), a ponto de ganhar um capítulo de destaque n’O Capital, marco do pensamento socialista, escrito por Karl Marx.

A Rússia, por outro lado, reage no papel de potência adversária (os Estados Unidos praticamente se extinguiu, depois de passar pela Segunda Guerra Civil) e, quando John Lennon é morto a tiros pelo fanático Mark Chapman, em dezembro de 80, seu corpo é sequestrado, levado para Moscou e reanimado, contra sua vontade documentada.

Vinte anos antes, The Beatles, antiga banda de Lennon, havia realizado o melhor concerto de sua carreira em solo soviético, e, a princípio, o motivo de o músico ter sido ressuscitado é fazer um novo show no país. Porém, à medida que a trama avança, Lennon descobre que faz parte de um plano de espionagem envolvendo uma fórmula de natureza genética, que guarda componentes de conspiração e uma série de reviravoltas que vão transformar (de novo e de novo) o futuro do mundo.

Fernandes faz um trabalho admirável na retratação de seu universo alternativo, compondo com detalhe e criatividade sua versão dos fatos históricos e da biografia de determinadas figuras públicas, com um brilho especial para a (diferente) formação do The Beatles e os acontecimentos que levaram à ruptura de seus integrantes.

O autor ainda oferece um saboroso catálogo de reimaginamentos de circunstâncias e de criações relacionados à cultura pop, como o fato de Lee Oswald ter atirado no presidente Truman; de a obra-prima de Cortázar ser O jogo de xadrez; de Beckett ter escrito Esperando Fausto; de existir uma base secreta contendo vida alienígena na Islândia, chamada Área 51. A certa altura, Lennon paga o preço de, numa entrevista, ter falado que sua banda era mais popular que Frankenstein. Deveria ter dito Jesus, lamenta.

O caso é que o domínio criativo e a expansão da imaginação acabam perdendo força diante de uma estruturação narrativa problemática e de opções de enredo duvidosas.

Ainda que se articule a partir da descrença da realidade, a virtude de um romance revestido por uma realidade alternativa é de prender a crença do leitor na verdade do universo que guarda em si. E Fernandes faz exatamente o contrário, aplicando um tratamento irreverente no modo como narra as cenas e dá forma aos diálogos entre seus personagens, valendo-se de uma linguagem invasiva e fora de tom, desbocada a nível quinta série e de uma renitente compulsão pelo orifício anal.

É claro, pode-se alegar que, naquela versão de mundo, um mundo fictício, Lennon, Yoko, militares soviéticos, Hitler falem dessa maneira, expressam-se dessa maneira, porém um filtro de seriedade não cairia mal, ao invés de nitidamente o leitor quase ouvir o autor dizendo olha que divertido o que estou fazendo, venha se divertir comigo.

Outro problema diz respeito à falta de organicidade na costura entre a história principal (o sequestro e a ressuscitação de Lennon) e as partes incidentais, envolvendo o passado do The Beatles e a retrospectiva do cenário mundial a partir das consequências da Grande Guerra. A narrativa, neste ponto, carece de fluidez e, evoluindo por meio de pausas longas e saltos temporais, dá a impressão de que são pedaços de histórias aleatórias montadas ao feitio de um mosaico.

Isso fica mais evidente na parte final, um tanto confusa e acelerada quando comparada às demais, que termina com uma revelação sensacional, referente a tal fórmula de natureza genética, que faz pensar no quanto o autor poderia ter desenvolvido essa ideia, ao invés de se apegar tanto ao comportamento aborrecido de seu protagonista trazido de volta à vida contra a sua vontade.

No fim das contas, Back in the USSR (título retirado da primeira faixa do The White Album, do The Beatles) é um romance com recriações bem elaboradas e instigantes da realidade, mas que acaba se embaralhando em deslizes de execução. O livro inaugura a coleção Futuro Infinito, capitaneada pelo escritor Luiz Bras.

 

 

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Livro: Back in the USSR

Editora: Patuá

Avaliação: Regular

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