Guerra dos tronos na Guanabara

Em sua segunda incursão pelo romance histórico, a jornalista Bruna Meneguetti remonta um dos momentos mais tensos e pouco visitado da história do Brasil.

O último tiro da Guanabara dá conta do chamado Movimento 11 de Novembro, acontecimento de cunho político-militar que teve seu auge no ataque da artilharia do Exército contra o navio em que estava a bordo o então presidente brasileiro.

Era o ano de 1955 e o país atravessava uma crise política agravada pelo recente suicídio de Getúlio Vargas, que resultara numa série de manifestações populares e no antagonismo de forças que miravam a nova eleição indireta para a presidência.

De um lado, estava a chapa formada por João Goulart e Juscelino Kubitschek, herdeiros da política de Vargas; e do outro, o jornalista Carlos Lacerda, líder da UDN e eterno rival do presidente morto.

Dono do jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda tentava desestabilizar a campanha de seus adversários, ventilando notícias de que estes teriam a intenção de implantar no Brasil um regime comunista. A manobra, no entanto, não surte efeito, e JK é eleito pelo Congresso.

Ocorre que Lacerda, com o apoio do presidente Café Filho, articula um golpe para impugnar a posse de seus opositores.

O ministro da Guerra, general Henrique Lott, reage e pressiona o presidente a tomar providências, porém, alegando problemas de saúde, Café Filho se licencia, passando suas funções para Carlos Luz, que demite o general de seu cargo no ministério.

A medida revolta os militares que, sob ordens de Lott, contra-atacam cercando o Palácio do Catete, na manhã de 11 de novembro. Temeroso, Carlos Luz embarca no Cruzador Tamandaré que, durante a fuga, é alvejado pelo Exército, no episódio que ficou conhecido como o último tiro da Guanabara.

A despeito de uma minuciosa pesquisa e de uma impecável reconstituição de época, Meneguetti usa a matéria histórica como pano de fundo, concentrando-se na relação entre os atores dos fatos, de modo a colocar o leitor nos bastidores desses dias arquitetados por artimanhas, intrigas e resoluções drásticas.

Valendo-se da história oficial, a autora constrói a sua versão dos acontecimentos, (re)criando cenas, diálogos e dando voz a personagens secundários, que orbitaram os protagonistas dessa guerra dos tronos tupiniquim, e a outros, inventados, que introduzem um ingrediente particular na composição do enredo.

É o caso de Isaías Monteiro, contratado por Sarah Kubitschek para vaticinar o destino de seu marido, em meio às turbulências políticas. Apresentado como um vidente cego, o personagem tem a capacidade de “enxergar” cores e símbolos que emanam das pessoas, e uma espécie de nuvem, no topo da cabeça, que representa o futuro.

Com isso, o romance flerta com o subgênero do mash-up literário, lançando mão de elementos sobrenaturais como forma de manipular a realidade registrada nos livros.

Isaías assume o papel de condutor narrativo, interferindo no andamento dos fatos sem que estes negligenciem a conclusão dos eventos como se conhecem. Paralelo a isso, o vidente tem sua própria subtrama, estabelecida no relacionamento com Cecília, um interesse amoroso de longa data, cuja ventura irá confluir com o destino do país.

Cecília trabalha como camareira em navios, além de integrar um grupo clandestino de mulheres que discutem suas posições na sociedade e no ambiente político.

É uma personagem escolhida por Meneguetti para representar a opção de enredo em colocar figuras femininas atuando de forma indireta na articulação dos acontecimentos, de maneira a espelhar a trama na realidade de hoje e subverter a imagem da sociedade sexista da época, liderada por homens, porém controlada, nos bastidores, por mulheres.

Afinal, tudo se volta aos dias atuais. Sessenta anos depois, revivemos uma crise política, um golpe de Estado e a iminência de uma ditadura militar. O último tiro da Guanabara, de certa forma, resgata um episódio pouco conhecido da nossa história, para mostrar que o Brasil é um país andando em círculo, na beira do abismo.

 

 

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Livro: O último tiro da Guanabara

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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