Manipulações da forma breve

“Enroscado” está em Mundo animal & outros contos, primeira antologia publicada pelo estupendo Antonio Di Benedetto. A narrativa se desenvolve a partir do esforço de um pai em acortinar o filho das agruras da vida, logo depois de serem deixados pela mãe do menino e despejados de casa.

Apesar de falido e cansado, o homem filtra, de seu estado de espírito, a ternura necessária para consolar o filho, que, em contraposição às remessas de zelo e de afeto, não se desabotoa da ausência da mãe e enreda-se num processo crônico de autoexílio, sendo engolido por um submundo de silêncio.

O final é a maior representação do significado de paternidade à medida que se entende paternidade enquanto compreensão, mesmo diante do inaceitável.

Por conta de seus aspectos de enredo, Di Benedetto compõe uma história mental, porém uma que não imerge para o campo da consciência. Embora as pulsões emocionais governem os personagens, todos os elementos subjetivos são traduzidos em suas ações e atitudes.

O autor argentino encadeia sua narrativa na camada pedestre, explorando a dimensão psicológica no desenrolar dos fatos, num movimento dramático que nunca dirige o personagem ao fundo de si. Os processos e os estados mentais são retratados de modo tácito, através da montagem dos pequenos gestos.

O garoto fecha a mão. O pai vê que se transformou em um punho e lhe dói que a mão do filho já antecipe as durezas da vida, escreve, magistralmente.

Economia calculada das articulações verbais e narrativas

“Doses de conhaque e uma dança para garotos na bancarrota”, conto que abre a seleta A última cabra, do paulistano Lucas Verzola, também se articula a partir da relação entre pai e filho. Um homem igualmente falido, macerado pelo vício e pelas más decisões que tomou na vida, que, num golpe de sorte, tira uma bolada no caça-níquel.

O dinheiro é o passaporte para conduzir o filho adolescente a uma noite de farra, cruzando a cidade até um prostíbulo. Grana de jogo é pra gastar com putaria, defende.

O caso é que ambos têm visões muitos distintas da ideia de diversão, que se refletem nas maneiras com que processam a situação em que estão inseridos. O pai se utiliza dos ingredientes de seu mundo desregrado para agradar e se aproximar do filho, enquanto o filho aceita ser exposto a esses excessos desagradáveis para ter a companhia do pai.

Verzola demonstra um traço de escrita muito semelhante àquele posto em prática por Di Benedetto. Há uma economia calculada na forma como desenvolve suas articulações verbais e narrativas, com frases limpas e de boa fluência, imprimindo as pulsões emocionais de seus personagens na mobilidade de seus atos.

O conto seguinte, “Manhã de sábado na barbearia”, a sua maneira também versa sobre uma forma transversa de legado.

Um pai leva os filhos para cortarem o cabelo no salão que frequentava quando menino, cultivando uma tradição por meio da qual trava um passeio pela memória. No entanto, a balança entre gerações causa um choque entre o passado e rituais do presente, incitando uma dinâmica de família que termina em níveis de violência.

Findada a leitura desses contos iniciais, o leitor tem a impressão de que se trata de uma antologia de costumes, focada nas relações humanas dentro da órbita familiar. O texto seguinte, porém, quebra essa expectativa, assumindo um estilo mais existencialista, no escopo de um burocrata que vai sendo posto para escanteio pelo sistema.

Epígrafes e inspirações

“Quinze Watts”, o conto que vem a seguir, é de uma guinada ainda mais brusca. Alternando o discurso entre a primeira e a terceira pessoa, a trama acompanha um narrador em estado psicológico alterado, que vai trazendo para o cotidiano a infiltração de uma atmosfera difusa, meio de transe, meio de loucura.

Aqui se evidencia a experimentação estilística proposta pelo autor. Assim como ocorria nos contos do mineiro Murilo Rubião, todas narrativas vêm precedidas por uma ou mais epígrafes que têm influência no teor das histórias. Verzola, contudo, vai além. Seus contos se inspiram também na literatura dos donos das citações.

E o repertório é bem seleto: Borges, Bolaño, Raduan Nassar, Milton Nascimento, o próprio Rubião, Rubem Fonseca, entre outros.

Precedido por frases de Maiakóvski e de Guimarães Rosa, “Elogia da escatologia” retoma a dinâmica entre dois personagens, de modo a divisar, por entre as hastes de seus atritos e contrastes, o aspecto de humanidade que formata as relações interpessoais.

A narrativa seguinte adota o mesmo processo de composição, embora num tom mais irreverente. A partir daí, os textos assumem a característica particular do gênero, transitando do fantástico ao mistério, até chegar ao conto que dá nome ao livro (e destaque para a boa sacada do projeto gráfico, sobretudo a capa).

“A última cabra” empreende uma relação entre um jogo de tabuleiro e o jogo entre o real e o fantasioso, estabelecendo uma conexão inesperada com uma narrativa anterior, a despeito de qualquer sentido de unidade que a antologia possa arregimentar, no que tange a temática, a arquitetura ou os recursos linguísticos.

São contos variados, ensaios da prosa ficcional. O próprio autor encaixa o epíteto Manipulações, abaixo do título; e esse é um termo bem adequado para os textos de Verzola. A manipulação da forma breve, ainda que o modo multifário de se contar uma história não interfira na confirmação de um estilo.

Um dos mais belos contos de Mundo animal é uma imagética incursão existencial, que termina com a emblemática conclusão: A vida é superável.

Os personagens de A última cabra podem até pensar assim, mas o fosso onde encontram-se suas motivações torna a vida um circuito demarcado por obstáculos.

 

 

***

 

 

Livro: A última cabra

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

2 comentários sobre “Manipulações da forma breve

  1. Obrigado pela atenciosa leitura, Sérgio. É uma honra ter mais um livro resenhado por você, neste espaço que é um dos melhores registros históricos daquilo que se tem feito de relevante na literatura de nosso tempo. Um abraço!

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  2. Adorei o livro e a resenha, Sergio. Sempre fazendo pontes pertinentes com outros autores. Desta vez achei bem bacana a associação com o Antonio di Benedetto, não tinha feito a ligação. Quando li a obra do Verzola achei que tinha um pouco de Piglia e Vila-Matas, embora ele escancare a influência mesma do Bolaño. Gostei muito dessa versatilidade, vários estilos num mesmo livro, uns contos mais realistas (aquele do posto de gasolina), uns mágicos meio cortazianos (do olho mágico e o duplo deste). Assim que li pensei que talvez pudesse prejudicar a unidade da obra (essa quebra de expectativa do terceiro conto), mas aí lembrei no “manipulações” tão escondidinho e vi que aquilo que unia tudo era isso mesmo, mais do que o tema ou os estilos. O ponto negativo pra mim foi a irregularidade dos textos. Alguns excelentes mesmo, que eu não me assustaria se fossem colocados nessas antologias de melhores do século. Outros sobram, poderiam ser chamados de “regular” segundo a sua escala aqui no blog. Problemas de edição que a gente conhece bem, com todo respeito à Reformatório. Mas se até o livro que ganhou o Jabuti de contos do ano passado é irregular por conta de problemas similares… Enfim, um abraço a você e ao autor.

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