Desenhando p… na bunda do ditador

Há uma sedução imediata em reconhecer, na linha poética de Um carro capota na lua, a influência radical do movimento beat.

Da mesma forma que autores como Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti fizeram de seus poemas instrumentos de rebeldia e de anarquismo, o escritor pernambucano Tadeu Sarmento bate, com seus versos, no lirismo lúdico e edulcorado, no bom mocismo contextual e no vacinado politicamente correto.

A forma e os interesses temáticos também se coadunam ao estilo daquela época. Versos livres, sem vocação para rimas, multiformes, cut-scenes que abordam temas contemporâneos e controversos em detrimento ao espaço subjetivo do eu, da narrativa introspectiva, articulando referências das mais diversas fontes artísticas.

É uma escrita compacta e, por vezes, crípticas, de onde decanta um teor irônico, paródico, que confronta o leitor com sua petulância corrosiva, a irrisão natural do humor ferido, da liberdade para tratar com escárnio assuntos e circunstâncias considerados sagrados, como visto nas primeiras linhas de “Revisionismo”.

Jogava diariamente na loteria/Com seu número de identificação/De prisioneiro em Auschwitz/Contrariando a poeta ruiva Aline Guarato/(Musa de Kurt Vonnegut),/Que sempre o mandava jogar com calibres/De armas de fogo.

A tal licença poética nunca foi tão literal. Em vários poemas, a retórica transgride o senso comum com o gosto pelo grotesco, pelo bizarro que se constitui por meio da aproximação entre as margens do erótico e do satírico, avançando para o terreno da anedota, de um tabuleiro picaresco de palavras.

Quando a conheceu, ela tocava na/Osquestra de Sopros Garganta Profunda./Hoje, ela só paga um trompete se ele lavar a louça./Quando o conheceu, ele tocava cítara na/Banda de Pau & Corda./Atualmente,/Ele está mais para corda que para pau./A cítara virou cabide de roupas,/O advogado dela se chama José Castro Pinto, de “Divórcio”.

Sarmento se arma de uma linguagem coloquial, direta e calibrada para inúmeros alvos e sentidos. Suas frases, apesar de ligeiras e descarnadas, estabelecem um forte senso imagético que se dispõe com naturalidade aos subentendimentos e às alusões evocadas pelo autor. É o que ocorre, por exemplo, em “Redundância”.

Sonhou que antes de sufocar no fogão/Sylvia Plath acendia um fósforo para/Verificar se o gás vazava.

Outros autores, livros, diretores, filmes, músicos e demais tipos e produtos da cultura popular são agregados aos versos, através dos quais o autor lança mão do recurso das insinuações, das entrelinhas, de modo a brincar com biografias e enredos, num exercício ora de intertextualidade ora de conversão da matéria real em ficção.

De certa forma, não deixa de ser um certificado de erudição. Principalmente quando toma emprestado elementos de um universo em particular, a exemplo do que faz no poema “2666”, no qual menciona Bolaño, Arturo Belano, um Camaro, o deserto, etc. e etc.

No entanto, o extrato de conhecimento que se perpetua por todo o livro sempre é subvertido pela ação desse tom provocativo, irreverente, ardiloso, que acaba por constituir a identidade dos poemas. Uma suspensão da gravidade a partir da qual o humor se interna em assuntos delicados como nazismo, câncer, suicídio, e a interpretação do mundo se torna menos carrancuda, menos condenatória, tão leve que acontece de carros capotarem na lua.

Conta a história que, numa forma de condenar a falta de patriotismo dos artistas da geração beat, o colunista Herb Caen cunhou a expressão beatnik, combinando o termo beat ao sufixo extraído do satélite russo Sputnik. Na ocasião, Ginsberg comprou a briga e desaprovou a expressão, chamando-a de obscena.

Tenho certeza que Sarmento se divertiria e faria um poema tão debochado quanto. É só um cometa, não é um tumor, diria. É só um cometa. E o cometa é/Um sol que não deu certo. Calma, Ginsberg, não precisa ficar uivando de raiva.

A antologia venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura.

 

 

***

 

 

Livro: Um carro capota na lua

Editora: Tercetto

Avaliação: Muito bom

2 comentários sobre “Desenhando p… na bunda do ditador

  1. Os pontos valorizados nessa ótima resenha foram os mesmos que me instigaram e me motivaram a editar o livro, como primeiro lançamento da Tercetto.
    Thais Guimarães

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