A memória enquanto cova de fantasmas

Prestes a ganhar uma homenagem no maior teatro de Bogotá, o cartunista Javier Mallarino pensa ter visto o também cartunista Ricardo Rendón.

Nos anos trinta, as caricaturas políticas de Rendón o transformaram numa “autoridade moral para a metade do país, o inimigo público número um para a outra metade, e para todos um homem capaz de causar a revogação de uma lei, inverter a sentença de um magistrado, derrubar um prefeito ou ameaçar a estabilidade de um ministério, e isso com as únicas armas do papel e do nanquim”. Status agora assumido por Mallarino.

Acontece que Rendón estava morto fazia setenta e nove anos, quando inexplicavelmente deu um tiro na própria têmpora. E esse é o primeiro fantasma que o passado envia para assombrar o protagonista de As reputações, para o qual a memória vai se abrir feito uma caixa de Pandora.

Em seu premiado romance, o colombiano Juan Gabriel Vásquez explora as falhas morais e as existenciais, o poder insidioso dos meios de comunicação e as condenações públicas e as privadas. É a memória, no entanto, que articula todas as partes desse espaço narrativo, à feição de uma deusa que deixa escapar os males para esse universo.

Sob sua direção e continuidade, ocorrerá o processo de formação desse olhar que, pouco a pouco, não será capaz de se desprender do tempo pregresso. Aos sessenta e cinco anos, dos quais quarenta dedicados a converter suas charges na “consciência crítica de um país”, Mallarino finalmente terá o reconhecido devido.

É o que imagina, para, numa sucessão de (re)encontros, ser desenganado.

O primeiro acesso é do fantasma de Rendón (“Como é estranha a memória: permite-nos recordar aquilo que não vivemos”). Em seguida, a caminho do palco de sua homenagem, topa com Magdalena, com quem foi casado e, anos depois, reviveu uma noite (“…havia sido como fazer amor com uma memória, com a memória de uma mulher, e não com uma mulher presente”). E, por fim, com Beatriz, a filha que teve com Magdalena, que vive a esmo pelo mundo (“…o passado é o que está diante de nós, porque podemos vê-lo e conhecê-lo, e o futuro, em contraposição, é o que está atrás: o que não vemos nem podemos conhecer”).

Todos esses momentos parecem interligados pela frase “É muito pobre a memória que só funciona para trás”, dita pela Rainha Branca, em Alice no País das Maravilhas, que se repete de modo renitente. De alguma forma, é como se o subconsciente do protagonista quisesse demovê-lo desse circuito de (re)visitações; afastá-lo desse processo profundo de pisar sobre suas pegadas até retornar a um dia em que o tempo se encarregou de pôr em suspensão.

Não consegue. Após o evento no teatro, Mallarino aceita o pedido de entrevista da jornalista de um blogue. Seu nome é Samanta Leal. Conversam sobre a rotina de trabalho, o porquê de o cartunista ter se refugiado numa casa nas montanhas, os alvos de suas charges.

O que Mallarino não sabe é que Samanta é também um fantasma. Vinte e oito anos antes, a jornalista e Beatriz, sua filha, eram amiguinhas de escola. Durante uma comemoração na casa do cartunista, as meninas, com sete anos, sorrateiramente beberam os restos dos copos e ficaram completamente embriagadas.

Foram levadas a um quarto, no segundo andar, de maneira a serem tratadas com doses de água com açúcar. Porém, quando o pai de Samanta vem buscá-la, descobre o congressista Adolfo Cuéllar, que tinha invadido a casa para tirar satisfação com Mallarino, no cômodo, próximo à sua filha.

Cria-se a suspeita de que algo profano aconteceu. Uma confusão se arma e se desmonta, contudo os ecos ficam assombrando o cartunista que, na charge seguinte, trata de denunciar o congressista, gerando consequências devastadoras, na ressonância adormecida das quais Samanta pretende lhes sintonizar.

Vásquez impõe uma escrita escorregadia, que cambia regularmente de linha narrativa, do relato reflexivo para o presencial, avançando por camadas de passado, mas sem nunca ser digressiva, nunca se utilizar de uma violência que não possa ser sugerida, que não leve os atores da trama a se questionarem sobre a verdade, sobre a culpa.

A mesma dimensão com que se pondera se vale a pena escavar essa cova de fantasmas é a mesma que avalia o tamanho de um ato, o peso de um gesto necessário para sacudir a opinião pública e desencadear julgamentos arbitrários capazes de prestigiar uma pessoa ou de arruinar sua reputação.

Aí está a potência do subtexto que pode ser aplicada num contexto político mais amplo, bem como em indagações íntimas sobre moralidade, sobre como, muitas vezes, apagamos da memória efeitos negativos de nossas ações de modo a favorecer o andamento de nossas vidas. “Se ela não sabe, o senhor também não”, conclui, a certa altura, um personagem.

De fato, a ambiguidade é a chave latente para se lidar com as questões levantadas em As reputações.

 

 

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Livro: As reputações

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Muito bom

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