Relatos de escravidão em São Paulo

Bienvenidos explora a temática da escravidão moderna, a partir do aliciamento e do emprego de mão de obra de imigrantes bolivianos na indústria de produção de roupas na cidade de São Paulo. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Previdência Social, uma população de milhares de desassistidos e sem representatividade, que trabalham em condições degradantes, no cumprimento de extensas jornadas sob coerção, violência, ameaça ou dívida fraudulenta.

A jornalista Susana Berbert, premiada por reportagem sobre refugiados no Brasil, personaliza esses números na história de Silveria e de uma série de outros personagens secundários que incidem sobre a trajetória da jovem, dos confins rurais bolivianos até as precárias e sufocantes oficinas de costura na capital paulista.

O trabalho de escrita se estabelece a partir do registro de entrevistas com a protagonista formatado com elementos ficcionais, de modo a remontar acontecimentos, cenários e diálogos de um passado da infância até os dias atuais. Com isso, o livro se configura uma espécie de romance de não-ficção ou um livro-reportagem romanceado.

Berbert demonstra habilidade e perspicácia para retratar um problema de escala continental, lançando mão da estrutura contida do drama doméstico governado pelo circuito de sentimentos. A chave romanesca é bem elaborada, focada no estudo dos personagens, que intitulam a série de pequenos capítulos.

Caso não fossem as informações técnicas que entremeiam o relato principal, o leitor se esqueceria facilmente de que se trata de um trabalho jornalístico.

Isso se dá, sobretudo, pelos episódios desventurosos de humilhação, de opressão, de covardia e de maldade que conformaram a vida da personagem principal, que chegam a beirar o fantasioso. Um enredo semelhante ao da Cinderela, a moça obrigada a trabalhar até o corpo não resistir, subjugada por seus próprios parentes.

Silveria nasceu na zona rural do Departamento de La Paz. Segunda filha de cinco irmãos, recebeu a missão do pai de cuidar da família dias antes d’ele precocemente morrer. Isaka, a mais velha, já trabalhava na casa de uma senhora nesta época. E com uma mãe mentalmente arruinada, esta também se tornou sua sina.

Assim, aos treze anos, Silveria foi “morar” com um tio, na cidade de La Paz. Desacreditada pela mãe e com a obrigação de sustentar os irmãos pequenos, realizou tarefas domésticas e trabalhou numa vendia por um ano, sem receber qualquer salário. Depois, foi enviada para uma outra casa, onde cuidou de duas crianças por seis meses.

Quando conseguiu reunir alguma economia, comprou comida e voltou para a casa da mãe que, desta vez, a mandou para o Brasil, sob a tutela de um primo tratado como tio. Foi o início da exploração atroz, em que era obrigada a trabalhar sem direito a descanso. “Tio, é muito trabalho, não aguento”, implorava a menina.

Chorava de dores, num regime de escravidão. Isaka, que também havia migrado para o Brasil e, aos 17 anos, já tinha se casado, tentava contatar a irmã, mas era impedida. Silveria sofria intimidações, por conta de estar ilegal no país. “Se você sair, a polícia vai ver que você não é daqui, e pedir seus documentos”, ameaçava o tio.

Nesse tempo, também teve o primeiro contato com um oficina de produção de roupas, tocada a mão firme pela esposa do tio, Florencia. A tirania chegou ao ponto de alegarem que ela tinha de cumprir um “contrato” de cinco anos, antes de pensar em deixar a casa.

A saudade da família era tanta que se converteu numa solidão implacável. Foi com um pedido da mãe que a liberdade enfim chegou, ainda que o tio determinasse que Florencia escoltasse a jovem de volta a Bolívia. Diante da mãe de Silveria, a mulher disse: “Aqui está a sua filha e é bom que você saiba que ela não trabalhou nada”.

A relação com o Brasil e com as confecções de roupas, porém, estava longe de chegar ao fim. A personagem ainda viveria circunstâncias mais duras de rebaixamento moral e de privação, dominada por conta da miséria e da indignidade por pessoas inacreditavelmente tão próximas. Ao contrário dos contos de fadas, não há reviravolta redentora na história de Silveira, no entanto não vale entrar mais em detalhes a partir daqui, para não comprometer a experiência de leitura.

Bienvenidos romanceia, sim, (parte de) uma vida, mas não faz desse recorte um desenho edulcorado, e sim um caco de espelho. A matéria da verdade permanece intacta em sua realidade reconstituída, talvez tornando-a ainda mais viva, mais crua, mas clara de se identificar e de se transferir no outro.

Nesse aspecto, pode ser assimilado como um exercício de alteridade, subjacente a investigação de uma tragédia de onde sai uma lição de força e de resistência feminina. Porém, prefiro encarar os fatos de maneira pragmática e entender como uma denúncia, um alerta para a situação desonrante de milhares de imigrantes que buscam um futuro melhor e são enganados, arrebatados, transformados em prisioneiros de uma cadeia de produção desumana.

Uma demonstração de como usar o jornalismo como canal para decifrar o entrevistado em seu grau de intimidade mais profundo e converter em literatura.

 

 

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Livro: Bienvenidos

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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