Narrativas com alto poder sinestésico

A antologia O búfalo no laranjal, do goiano Rodrigo Lage Leite, distingue-se por sua singularidade estética.

São quinze contos estruturados por meio de uma arquitetura movediça, na qual as palavras se atraem não apenas pela relação sintática, mas também pela sonoridade produzida pelo descumprimento das regras de pontuação e pela falta de ruptura entre os discursos direto e indireto.

Uma corrente de forte efeito sinestésico com foco no aspecto visual, configurando um plano imagético através do qual se articulam temas comuns e concretos, embora em chaves e tonalidades estranhas, como se domados por uma energia negativa, insidiosa; uma tensão meio inatural, meio nociva.

O autor parece querer desconcertar o leitor no contato com a forma, depois tragando-o para esse mundo marcado pelo golpe das palavras, a tessitura intrigante e magnética de um conteúdo que evoca a atmosfera de medo, do sombrio que há nas camadas que abrigam os fantasmas reais e os metafóricos.

O que é a personagem Madruga, do conto “Absoluto nada”, que abre o livro? Uma velha mendiga, que expõe flores e jarros numa calçada, transtornando os olhares dos passantes. O que, de fato, ela significa? A morte, o mau agouro, a representação umbrosa dos sentimentos alheios?

É uma situação difusa, insólita, ao mesmo tempo que fascinante. Leite tem uma escrita habilidosa, que envolve e desnorteia, conferindo-lhe identidade. Há um notável apuramento técnico, subposto a uma boa dose de sensibilidade para criar essas imagens do que existe e do que está a cargo do leitor existir.

Os contos “Vulgar” e “Crucifixo” são exemplos vistosos desse procedimento. Ambos são conduzidos por uma voz feminina que tenta um tipo de entendimento superior para lidar com sofrimentos terrestres. No primeiro, uma avó que se debruça sobre o caixão da neta, ao passo que, no segundo, uma mulher que enfrenta uma crise espiritual.

Deciframos facilmente seus dramas, contudo seus fluxos de pensamentos parecem escorrer para uma zona de silhuetas e escuridão.

“O rondó da prisioneira” é o mais expressivo, nesse contexto. Uma fazenda remota é cenário para uma série de abortos, que voltam para cobrar por suas não existências num circuito de múrmuros fantasmagóricos, uma labilidade de palavras que se afigura em assombros ou delírios persecutórios.

As narrativas seguintes exploram terrenos (aparentemente) sem a mesma densidade, embora construídas por esse mesmo léxico de evocações, segredos e labirintos, galgando interpretações que centralizam ou materializam o mal através de um organismo ou de um plasma afetivo.

Uma passageira que carrega um câncer, um irmão que tenta avisar ao outro sobre a morte da mãe, uma mulher que oculta uma doença no íntimo dos dogmas ancestrais.

O exercício de alteridade se irradia por esses caminhos múltiplos, por estados de consciência que articulam o tecido narrativo fundindo num mesmo efeito estético componentes materiais e conceptuais, emoção e razão.

Enredos fiados com “um manejo muito próprio”, nos quais “o rendilhado perde por vezes a configuração previsível tramando linhas improváveis num desfecho assustador mas belo que obstrui a passagem penetrante de algo pelas fendas”, como descrito em “A turca”.

A antologia se encerra com o conto que lhe dá título, uma diástase entre paternidade e acolhimento, entre amarelo-infância e brutalidade-carmesim, redundando num timbre poético indevido, fragmentos de prosa potenciados em elementos sensoriais que caracterizam uma literatura de se estranhar e de se encantar igualmente.

Que as premiações, de maneira geral com uma visão limitada e elitista, enxerguem o tamanho do búfalo que circula pelo laranjal!

 

 

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Livro: O búfalo no laranjal

Editora: Patuá

Avaliação: Muito Bom

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