Celebração da vida no topo da finitude

Lando e Ciça moram na mesma casa há cinquenta e dois anos, desde que se casaram. Septuagenários aposentados, passam os dias de forma frugal, entre afazeres domésticos e hobbies. Enquanto ela cuida da alimentação e das plantas, ele faz pequenos serviços de marcenaria e escuta elepês antigos numa vitrola herdada do pai.

Tiveram um único filho, em prol do qual investiram todas suas economias. Formou-se publicitário e fez vida nos Estados Unidos.

A solidão, contudo, não lhes assombra. Residem num bairro interiorano de São Paulo, de vizinhança formada por “moradores tradicionais, tornando-se um dos poucos redutos da velha guarda da cidade”. Com exceção dos adolescentes festeiros de uma família recém-chegada, a rotina de todos é bem pacífica.

Então a casa dos vizinhos mais próximos (que foram colocados num asilo pelos filhos) é posta para alugar. Depois de algumas visitações infrutíferas, o imóvel finalmente é ocupado por um casal de idosos. Porém, ao contrário de Lando e Ciça, Ronnie e Never demonstram uma vivacidade atemporal.

Frequentam bar, restaurante, bebem vinhos caros, passeiam de carro e namoram em público. O encontro e a dinâmica entre dois casais de comportamentos (a princípio) tão distintos será o ponto de partida de Quatro velhos, novela recente do paulista Luiz Biajoni.

O autor estrutura seu conteúdo narrativo através das transições e interações desse quadrilátero de histórias, ao estilo de um estudo de personagens. Presente e passado se entrecruzam, encadeando episódios que vão dando tração à trama, conduzida em média voltagem, com foco nas realizações do prosaico dia a dia.

Almoçam, conversam, bebem, ouvem música, remexem na memória; e vão descobrindo uns aos outros e se redescobrindo. Não há reviravoltas, alteações. Até mesmo um mistério incidental, proposto no prólogo, que envolve o ditador Benito Mussolini, dilui-se no movimento dos acontecimentos de baixa estatura, interpessoais.

Um dos personagens está com câncer terminal – e esse é o limite de tensão do enredo. A maneira pela qual quarteto é confrontado pela morte, e mesmo assim tenta tripudiá-la, tripudiando o tempo, a idade, e involuntariamente protagonizando situações de comédia de costume, a exemplo de uma, saborosa, envolvendo cigarros de maconha.

Biajoni faz reverência à literatura de nomes como os norte-americanos Raymond Carver e Sam Shepard, cujas histórias, focadas no mundo material, são imantadas por cenas cotianas nas quais reinam o aspecto humano, em seu contingente realista de fraquezas, decepções, angústias, resignações e esperanças.

Sua escrita é sobrevoante ao mesmo tempo que de percepção aguçada, delineando os atores da trama em suas dimensões psicológicas e físicas a partir de suas ações, sem recorrer a fluxos de consciência ou digressões. Com isso, a leitura fica leve, macia, podendo ser concluída numa levada só.

De forma subjacente, há ainda um estado permanente de nostalgia conduzido, sobretudo, pela música, por meio das big bands e dos cantores de jazz da era dourada, que ressoa por toda a trama, corroborando o tempo incinerado que tem o papel de fio condutor, criando esse momento de transformação e de retorno antes do inevitável momento final.

Pode-se tirar algumas lições e mensagens, em Quatro velhos. Um livro que celebra a vida, cantando e dançando no topo mais alto da finitude.

 

 

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Livro: Quatro velhos

Editora: Penalux

Avaliação: Bom

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