Cada ferida dói a quem a tem

A primeira qualidade que salta aos olhos em Por cima do mar é a condução narrativa. Em como a carioca Deborah Dornellas controla o andamento do seu romance com segurança e organicidade, mesmo tratando-se de um texto multifragmentado, que se estrutura através de uma rede de linhas temporais e territoriais.

Algumas páginas adiante ganha volume outro mérito: a combinação afiada de inteligência e leveza na articulação de temas complexos, como racismo, discriminação, ditadura, violência contra a mulher, escravidão e guerra civil, lançando mão dos recursos da analogia e do subentendimento.

Ao narrar, por exemplo, o primeiro contato entre uma menina negra e pobre e outra rica e branca, a autora vai engendrando, de modo delicado e remansoso, um paralelo entre o processo de interação entre as duas e dos ingredientes de um bolo formigueiro, no qual a massa de baunilha vai se misturando com a massa de chocolate.

Em outro momento, em que retrata um estupro, o foco descritivo nunca se desprende da vítima, deixando implícito o ato e concentrando-se no efeito devastador no íntimo dela. Uma cena expositiva de agressão, com gritos, socos e fraturas, não seria tão impactante quanto.

Deborah tem a habilidade de reconstituir todo um cenário continental, no entanto seu livro cresce nas relações menores, na associação entre estados de humanidade e motivações terrestres que contagiam o ambiente da fabulação, de modo a criar um elenco de personagens de carne e osso, realmente vivos.

Com tamanha dimensão psicológica, com tamanha bagagem existencial, com tamanha visão de mundo, é impossível não acreditar que a condutora da trama exista de fato, de que se trata da conversão da matéria biográfica em matéria ficcional. Lígia Vitalina da Conceição Brasil, a Vita. Nome e apelido.

Simbolicamente, sim. Uma amálgama de milhares de mulheres negras, nascidas e criadas à margem da sociedade, que desde muito cedo aprendem que têm de lutar contra toda a espécie de preconceito e maldade, para terem acesso a seus direitos, para terem acesso a um futuro. Por conta da cor da pele, por conta do gênero, por conta da condição social. Lígia Vitalina da Conceição Brasil, uma personagem de ficção, sobremaneira real. Legítima e magnética.

No livro sobre sua vida, ela é, duplamente, testemunha e agente dos fatos. Sua narração não linear abrange várias distâncias de tempo, cobrindo desde seus antepassados escravos até o momento presente. Um espaço movediço de reminiscências, articulado por três eixos: a infância passada na periferia de Brasília, na companhia dos pais, dos irmãos e de uma tia; a fase do campus universitário – como aluna e, depois, como docente; e o encontro com o professor angolano, que vai assentar os trilhos do futuro.

São visitações de cenas nos quais se vivencia e se reflete sobre experiências dos mais diversos pesos e profundidades, dirigidas por uma força de representação da vida em seu encadeamento de pequenos brilhos e enormes fantasmas, fundamentando um exercício de composição no seu modo de ser mais íntimo.

Uma esfera particular que se reflete num passado histórico brasileiro. Geograficamente. Nascida no Rio, criada em Brasília e moradora de São Paulo, com passagens por Angola, a autora se utiliza das andanças de sua protagonista para constituir desenhos verossímeis das cidades do Brasil e da Africa, traçando um paralelo entre os países de modo a ilustrar o quanto ambas as sociedades trazem feridas abertas e profundas provocadas pelo tráfico de escravos.

A pobreza, o abismo entre classes, a violência urbana são consequências desse sistema ignóbil, embora também tenha moldado identidades e culturas; idiossincrasias e problematizações que o livro traz à tona, discute, mas sempre vinculado às histórias de seus personagens, às situações de perdas, de crueldade, de destruição e reconstrução.

Há uma dor presente na história de Lígia Vitalina, mas um tanto mais de resistência. Apesar dos acontecimentos duros, dolorosos, é uma narrativa sobre resiliência, obstinação, poder feminino, maternidade, amor. Um livro que não baixa a guarda, porém permite vários abraços.

Por cima do mar, enfim, impressiona em seus recortes da realidade e comove em seus veios delineados de ficção. Um olhar sensível sobre a travessia de uma mulher negra, de origem pobre, ao encontro de suas raízes, num ciclo que acaba por revelar as próprias raízes do Brasil, um painel vasto de nossa ancestralidade.

Um grande romance em inúmeros aspectos, que venceu o Prêmio Casa de Las Américas.

 

 

***

 

 

Livro: Por cima do mar

Editora: Patuá

Avaliação: Excelente

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