Um narrador fora do seu tempo

Diário da casa arruinada parte do reconhecido mote do diário encontrado e reproduzido como conteúdo de um romance.

Na nota que antecede o corpo do texto, o autor Tiago Feijó informa que descobriu o caderno de anotações escrito a lápis, em meio às ruínas de uma casa que comprou numa cidade nomeada apenas pela inicial G. Os registros compreendem 25 dias em julho de 2011, e se concentram no “terrível segredo de uma família”.

Quim, o pai, é o narrador. Em meio a uma crise provocada pela abstinência do cigarro, ele examina suas tentativas frustadas de se tornar escritor e as relações difusas com a pequena filha Selene e a esposa Madalena, uma artista plástica envolta por uma aura de mistério e de certa fantasmagoria. Irene, a governanta, fecha o elenco de personagens.

Há, aqui, uma questão que parece simples, mas não é. Todo diário se constitui da transcrição de uma corrente de pensamentos, porém o leitor é guiado pela oralidade. Inevitavelmente, a voz narrativa ganha eminência. De modo que a leitura não se conecta ao mecanismo de escrita, e sim ao mecanismo da fala. Lê-se como quem ouve.

Dito isso, soa, no mínimo, incoerente um diário escrito em 2011 como se fosse do início do século XX. O narrador se instrumenta de uma série de palavras datadas e/ou de um rebuscamento evitável, emulando um tipo de história de aspecto mental visto em Machado, de Dom Casmurro, e em Graciliano, de São Bernardo.

Está bem, pode-se argumentar que, sendo um aficionado por clássicos da literatura, o personagem beba desse vernáculo arcaico. Todavia, se dentro do universo da fabulação possa até fazer sentido, expressões como frontispício e arfabundo congestionam (e muito!) o curso narrativo (confesso que tive de parar e procurar o significado no dicionário).

Há ainda problemas referentes ao tratamento do texto, que dizem respeito ao cuidado com a edição. Trechos marcados por redundâncias ( “pensamento girou dentro da cabeça”) e por aliterações (“fugir fugazes fumaças”) saltam aos olhos à medida que se privilegia um requinte sintático.

Acaba gerando um resultado contraproducente, e tudo transcorre como se governado por maneirismos.

Uma pena, pois tira o foco do enredo, articulado com criatividade por Feijó, que aposta num estado de transtorno regido pela combinação de privação e paranoia. Assombrado, o narrador vai vestindo seu cotidiano familiar com camadas de assombros, a partir das quais a realidade se comprime, hiato a hiato, num território espectral.

Um clima meio de delírio, meio de sonho, em que se desvenda a ordem das coisas como se olhasse pelas frestas da vida e acessasse um espaço de consciência no qual se experimenta momentos de paternidade, de desejo, de transcendência, de horror, de sorvedouro de lembranças.

Com uma linguagem mais simples e de acordo com seu tempo, Diário da casa arruinada produziria, sem esforço, o efeito de imersão do leitor em seu enredo movediço, que perde aderência por conta de uma dicção não crível e a opção por um anacronismo refratário.

 

 

***

 

 

Livro: Diário da casa arruinada

Editora: Penalux

Avaliação: Regular

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