Contos que guardam ressonâncias

Embora separados em seções temáticas, todos os contos de Por assim dizer se contextualizam a partir de circuitos interpessoais.

Seja no tecido familiar ou nas associações afetivas, há sempre um movimento de se aproximar ou se distanciar do outro, de cingir ou de romper laços.

A paulista Yara Camillo segue a tradição das narrativas enredadas no prosaico dia a dia, que estabelecem estados de tensão para acessar um plano existencial.

Abordagens que nascem de experiências do contato com alguém (e, inevitavelmente, consigo), usando da memória, da vivência ou da impressão para articular seus conflitos.

Como ocorre em “A nora”, que abre o livro, na qual uma mãe destila seu preconceito em relação a nova namorada do filho.

O texto faz esse exercício de dar corda a uma ação que vai se construindo à medida que dois ambientes ganham forma: o vigente e aquele em que o leitor toma conhecimento de elementos externos à interação entre os atores da trama.

“Duas vias”, que vem em seguida, exemplifica bem esse modelo de escrita.

Os primeiros passos de um relacionamento entre um homem e uma mulher vai, pouco a pouco, revelando-se a retomada de um caso interrompido décadas atrás.

A leitura funciona, desse modo, como uma coleta de indícios que levam a um entendimento subjacente a primeira camada onde se pavimenta o enredo.

Lembra Piglia e sua tese de que um conto sempre conta duas histórias.

O relato visível que esconde o relato secreto, narrado de maneira elíptica e fragmentária.

“Sorte de cão” estrutura-se a partir de linhas narrativas que se confluem para uma sobrecarga de sentimentos entre mãe e filha.

As escolhas e os julgamentos, o direcionamento da vida e a parcela emocional que se doa ao outro se desdobram num texto sobre culpa e luto, se o peso de uma morte deve ser dividido de maneira coletiva.

Camillo executa com segurança a forma breve, com frases enxutas e bem ordenadas, que buscam retratar momentos onde se sobressaem os dramas domésticos.

São olhares de curta distancia que miram em pessoas comuns, que lidam com medos, angústias, derrotas e autoenganos, em escala pedestre.

Por isso, quando traz para esse universo ingredientes da literatura fantástica soa destoante, pois contrasta com a realidade concreta da maioria dos contos.

Componentes do insólito e de natureza onírica cobrem todo um capítulo, que poderia ser bem retirado da antologia.

Outro problema diz respeito a um processo de planificação das narrativas que, do meio para o fim, vão perdendo camadas e o tal relato secreto, idealizado por Piglia.

O entusiasmo retorna, contudo, com um efeito simples, mas producente no que tange a curiosidade e a aderência do leitor.

As páginas finais são preenchidas com apêndices denominados “Ressonâncias”, constituídos por mini episódios que se conectam diretamente aos contos vistos anteriormente, nos quais as tramas se acrescem de novas informações que fornecem outros ângulos ao que foi lido.

Ao manipular o imaginário e a chance de interpretações, a autora eleva a um novo estágio uma antologia, a princípio, regular.

 

 

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Livro: Por assim dizer

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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