Crime e paranoia nas ruas de Paris

Há pouco mais de um mês vivendo em Paris, o narrador carioca de Saquarema sete três oscila entre a admiração e o não pertencimento. Reconhece o quanto a capital francesa é incomparável, numa soma de quesitos, ao Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que não consegue estabelecer relação com a cidade e seus habitantes. Além disso, depara-se com sinais de miséria e problemas de ordem púbica que não mostram os cartões-postais. Paris é linda e suja, define.

A impressão se agrava, pois sua chegada coincide com o ataque terrorista contra o jornal Charlie Hebdo. A tensão e a paranoia estavam estampadas na cara de qualquer um: nativo, imigrante ou turista. Nunca vi tanta polícia, tantos ruídos de rádio e tantas armas nas ruas. Todo mundo andava apressado, olhando o próprio nariz, evitando multidões, temendo tornar-se vítima de um possível novo atentado. A sensação de vulnerabilidade era contagiosa, descreve.

Sendo assim, passa os dias exilado num estúdio emprestado, às voltas com a tradução do novo livro de um autor irlandês, internacionalmente famoso por escrever histórias de fantasia. Até que, numa certa manhã fria, decide conhecer uma loja de discos num bairro distante e, ao tomar o metrô, um encontro inusitado revira sua rotina indolente.

Dentro do vagão, no curso entre as estações de Louvre-Rivoli e Châtelet, ele nota um homem o encarando fixamente. Branco, corpulento, em torno de 70 anos. De repente, o estranho se levanta, aproxima-se e faz a seguinte confissão: Bom dia, eu matei um homem no verão de 1973, em Saquarema. Sei que você não me conhece nem perguntou nada, mas é que eu precisava tirar isso de dentro do peito. Nunca contei esse segredo a ninguém e já faz muito tempo…, em seguida desembarca.

Esse é o ponto de partida do romance do brasilo-americano Zé McGill. Em sua estreia na narrativa longa, o autor constrói uma trama aparentemente de formato simples, mas que pouco a pouco vai se tornando complexa, por conta do movimento de suspense que tem a função de fio condutor. Nada é como entregue a princípio. E o leitor vê suas expectativas sendo quebradas, na aparição de reviravoltas dentro de reviravoltas, num clima de mistério sempre volátil.

McGill subverte o gênero detetivesco, dosando-o a um texto de aspecto documental, onde se sobressaem as descrições e os comentários críticos do desterrado sobre uma cidade na qual se contrastam a realidade e sua visão idealizada. A arquitetura secular, os bons restaurantes, os recantos sórdidos, os moradores de rua, o metrô escuro e sufocante.

A certa altura, entra em cena Otto, um amigo brasileiro que estuda Cinema numa universidade parisiense, emulando a clássica dupla de investigadores das narrativas policiais. A interação entre os dois incorpora ingredientes de humor ao texto, sem esfriar a tensão causada pela curiosidade sobre a veracidade (ou não) do crime.

Nesse processo de perseguição de pistas, a paranoia coletiva ante a chance de uma novo massacre se sintoniza ao comportamento obsessivo do narrador sobre a identidade do estranho e o porquê de sua confissão. As características de história mental aparecem, colocando a tudo sob suspeita, num andamento sinuoso que descortina um passado de neuroses, que diz respeito o real motivo do exílio na capital francesa, e um mais amplo, de outro personagem, referente ao Brasil em tempos de ditadura.

Com uma escrita fina, de linguagem coloquial, Saquarema sete três fisga o leitor na exposição de seu conflito e o conduz com empolgação até final, ainda que o desfecho garanta surpresas e interpretações. Pensando bem, essa é uma de suas qualidades. Bons livros são aqueles que prolongam a vida de suas histórias, depois de findada a leitura.

 

 

***

 

 

Livro: Saquarema sete três

Editora: Tinta Negra

Avaliação: Bom

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