A queda da própria altura

Demorei cerca de um ano para ler O pai da menina morta, de Tiago Ferro. Toda a vez que o livro assumia a dianteira na minha fila de leitura, eu o ultrapassava com outros títulos. Não que eu duvidasse da competência do autor paulista, em sua estreia literária. Ocorre que, conhecedor da natureza do enredo, sempre acionava em mim um freio de segurança, afastando-me daquele universo que eu sabia, de antemão, seria-me muito sensível.

No final de 2008, eu esperava a chegada do meu primeiro filho. Alguns dias antes do nascimento, porém, um súbito aterrador nos tomou e, no desmoronamento dos acontecimentos, eu me vi numa antessala fria e esterilizada, vestindo um traje hospitalar para assistir um não-parto, sufocado por um silêncio duro, de audição insuportável.

Uma coisa que pouca gente sabe é que, depois de completada 20 semanas de gestação, é obrigatório se fazer um enterro. Neste caso, a certidão de nascimento é substituída pela certidão de óbito. Você tem de comprar um sepulcro, pagar pela gaveta tumular e atravessar o corredor de sepulturas infantis, embalando uma caixa.

Outra coisa que pouca gente sabe é que, dentro desse vazio, há o rapto de todas as sensações. As pessoas dizem “você está reagindo bem”, “é uma rocha”, mas você não consegue ficar triste, berrar, explodir em lágrimas, pois reina em você um caos interno, a linha de condução da vida se despedaça em mil partes.

Do ponto em que inicia os registros de seu livro, Tiago Ferro tenta assumir o controle desse estado caótico, reorganizar as partes do menino-homem-pai que era antes da perda e reagrupá-las num ser constituído no processo do luto, a preparação de um novo estágio tendo como dispositivo a literatura.

Durante meu processo de luto, comecei a escrever contos que viriam a compor meu segundo livro, Queda da própria altura. Aturdido pela possibilidade de que algo tão antinatural pudesse ter ocorrido comigo, conosco, minha chave de escrita foi a literatura fantástica, abordando temas como a morte, o tempo, a paralisia, o vazio.

Tiago Ferro optou pelo gênero da autoficção. Seu narrador manobra fragmentos da matéria autobiográfica transformada em matéria ficcional, de modo randômico, a partir da concepção de uma estrutura movediça. São trechos relacionados a testemunhos e considerações das mais diversas fontes e alvos, que estabelecem um trânsito digressivo ao fato central, a morte da menina chamada indistintamente de Minha Filha. Afora a esposa, os demais personagens são nomeados por títulos ou siglas.

A decisão pelo anonimato conduz a uma segunda camada, na qual Tiago Ferro provoca uma reflexão sobre a verdade, em tempos de redes sociais e seus calibres expositivos. Para quem seguia seu perfil no Facebook em 2016, recorda-se que o autor divulgou o falecimento de sua filha Manu, de oito anos, vítima de uma inflamação no miocárdio em decorrência da gripe da Influenza B. Tornar público o fato gera um circuito que se propõe a refletir sobre a franca permissão de se condenar o que não é mantido privado.

Seu canalha. Era só ter dado a porra da vacina! Faça um favor a todos nós: tome veneno e acabe com o nosso sofrimento. Corte a jugular e nos deixe em paz, essa é uma das partes em que o narrador emula o chamado tribunal da internet.

Em 2008, as redes sociais não tinham a dimensão de agora. Toda a espécie de condenação que possa ter derivado da minha perda voltava-se diretamente para mim. Dez anos depois, ainda me pergunto no que errei, qual ação eu deveria ter tomado para desviar o caminho dos fatos daquela antessala, do frio estéril que não vai embora.

Nas vezes em que se agarra ao fio condutor, Tiago Ferro revive a sequência de acontecimentos que abarcam os primeiros sintomas da doença, a internação hospitalar, a morte e o velório de sua filha. São os momentos mais dolorosos, comoventes, onde parece não haver a possibilidade de remoção da realidade, como nos registros avulsos.

Aqui é o pai de fato quem escreve. Aquele que foi agente dos fatos, que vai a fundo na pior das dores. Dessa experiência deformadora, configura-se o eixo humano do livro, os conflitos e códigos vitais para traduzir essa pulsão de sentimentos, a busca de pistas que levem a entender o que é a morte e porque ela não respeita a ordem natural da vida.

Talvez o gesto mais cruel da morte é oferecer o tempo como cura. Você segue vivo, embora não esteja, e o mundo cego prossegue exigindo as mesmas prioridades, os mesmos roteiros de um cotidiano sem ruptura, até você se render e retomá-lo. Que espécie de pai você é? Como você ainda tem coragem de exibir a sua cara por aí? Como você ainda tem a petulância de comer, dormir, sorrir, trepar, respirar? Como? Responda!, cobra a voz interna, cobra a voz social.

Enquanto escrevia meu segundo livro sempre imaginei que este era o meu ato mais covarde. Como eu poderia investir numa forma de fuja, enquanto todos ao meu redor ainda estavam detidos pela perda sem chance de canalizar a dor? Levou um tempo para eu me dar conta de que um livro é uma forma de eternização. Não vai apagar o que passou ou tornar menos doloroso, como nada vai. Escrever é materializar uma memória contra o efeito do tempo que tudo dissolve e, por mais que você resista, no fim todo o corpo se transforma numa imagem, em palavras, em lembranças. A vida segue, independente da vontade. Você vive, mesmo que morto em alguns lugares.

Dez anos se passaram para mim, e agora eu sou pai de uma menina de oito anos. O narrador tem a Outra Filha. Tiago Ferro será sempre pai de duas meninas.

Enquanto reviso e finalizo esse texto, minha filha dorme no cômodo ao lado. Ela não sabe do passado, do que escrevo em meus livros, e de que O pai da menina morta é o mais sensível e original relato sobre a perda registrado na literatura brasileira.

Enquanto o mundo gira ao redor do seu próprio eixo, minha filha dorme o silêncio da madrugada. E, às vezes quando me deito ao seu lado, o peso sobre o colchão gera uma onda que a desperta, fazendo com que abra de leve os olhos e, mesmo atordoada pelo sono, ofereça-me um breve sorriso. Acho bonito.

 

 

***

 

 

Livro: O pai da menina morta

Editora: Todavia

Avaliação: Excelente

5 comentários sobre “A queda da própria altura

  1. Você nos entrega a sua perda com uma sensibilidade digna de respeito e solidariedade. Não há culpa. Só o vazio. A dor, a incredulidade, a impotência. Receba meus sentimentos, mesmo que uma década já tenha se passado. A resenha, hoje, foi substituída por esse relato triste e honesto. Sinta-se abraçado.

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  2. Eu, que estou lendo Semente de Bruxa, da Margaret Atwood, lembro-me de Felix, personagem do livro: diretor teatral que se encontra atormentado, entre outras razões, pela perda da filha, e convive com sua ausência depois de doze anos. O pai vê a menina crescer, dialoga com ela enquanto remonta A Tempestade, de Shakespeare, perseguindo seu desejo de vingança. É também o pai de uma menina morta. Talvez seja similar o mecanismo da perda, algo que se move em secreto e almeja encontrar culpados diante da experiência deformadora, que se vê refletida agora na psiquê. Até, quem sabe, se perceba que não há culpa, só o vazio, como comenta a Cinthia Kriemler. Preciso terminar o livro da Margaret e ler o do Tiago; parece comovente. Resenha belíssima.

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  3. Querido Sérgio, o abraço que te dou agora é meu abraço mãe. Uma resenha que é crônica, e que vem tão humanizada. Livros são também para isso.
    O abraço.

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