Gritos que despedaçam por dentro

Todo esse amor que inventamos para nós, de Raimundo Neto, foi um dos vencedores do Prêmio Paraná de Literatura 2018.

O livro de contos se estrutura a partir da ruína de certas instituições (o corpo, a casa, a família, o gênero sexual), reconfigurando-as num espaço de conflito no qual se esgrimam temas como homossexualidade, violência, miséria humana, liberdade, preconceito, infância, devassidão.

Em sua estreia, o autor piauiense lança mão de um tratamento metafórico para abordar modos de castração e de traumas vividos no contexto familiar e ressoados na sociedade, dando voz a personagens que materializam suas dores numa coisa viva, sem identidade, que se autofragmenta a toda vez que para de se transformar.

Um grito contido que despedaça tudo por dentro.

De maneira que o ritmo narrativo é nervoso, pulsante, encavalando frases que parecem se acotovelar no movimento de encaixe. Um circuito em voltagem hiperestésica, que sobrepõe modelos de narração, articulados para a produção de um mecanismo no qual a fala é a chave com que se (des)constrói a forma.

Numa leitura superficial, soa como um campo de experimentações, mas é um tipo consciente de escrita baseado em paralelos e rivalizações. Homem/mulher, meninice/maturidade, aceitação/discriminação, sofrimento/prazer, independência/prostituição, pênis/vagina, ânus.

Visões de mundo marcadas pelo contraste entre o físico e o espiritual, o concreto e o subjetivo, explorando os limites do corpo tais quais as paredes de um casulo, o útero materno que gera e expulsa, a mãe que desacolhe, o pai que brutaliza, e a fuga é o meio de resistência, de preservar a si.

Esse é o dilema-martírio do(a) protagonista do estupendo conto que dá nome ao livro. Uma incursão catártica para o fundo mais sanguíneo, uma arqueologia existencial de modo a compreender Antônio/Sthefany, suas feridas e humilhações, quebrado(a) de todas as formas pelos pais, pelos irmãos, pelos amantes, pela vida.

Se eu me apaixonar, não é mulher. Se eu me apaixonar, não é mãe. Se eu me apaixonar, não tem família. Se eu me apaixonar, bicha. Se eu me apaixonar, as manchas trepadas sobre o corpo, dos golpes mortos. Se eu me apaixonar, quantas quedas escorrem dos saltos quando eu digo Não aperta meu braço, seu merda. Se eu me apaixonar, pecado no corpo dilatado improvável, os golpes vêm e eu ainda não sei pedir socorro.

Neto alça os atores de suas tramas a uma escala psicológica representada em timbres rasgados, carregados de uma dramaticidade visceral, legítima e humana. O confessional “Morar no céu” se conduz ao fluxo de um relato epistolar direcionado à mãe, dotado de uma potência emotiva que leva a crer que há ali algo de biográfico.

“Nascemos nos braços velhos da casa”, que vem em seguida, assemelha-se a um vestígio da composição anterior sob a ótica da criança palmilhando o mundo. Nascemos nos braços velhos dos nossos avós, que era pais de nossas mães, que só sabiam ser mulheres e cuidar do resto de nossas vidas.

Ao longo da leitura, o retorno aos mesmos elementos e cenários leva a crer que as múltiplas vozes de fato é uma só, permitindo uma experiência romanesca. Funciona de ambas as maneiras, por conta da identificação estética suportada em referências de imagens que integram a tudo a um mesmo ponto de fusão.

A expressão desse processo profundo de autoconhecimento que é a apreensão do mundo doméstico e do intangível, os vínculos que se partem e a redoma da infância se desfaz em atos de repulsa, de ódio, a expulsão da casa, a negação da família, o coletivo que exclui por ser diferente, por não ser o que o registro indica.

Para além do universo ficcional, portanto, os textos de Raimundo Neto oferecem uma necessária pauta crítica. A intolerância e as formas de violências dirigidas à questão da homossexualidade, apresentadas num plano com características da história mental e um escopo de intensa tonalidade poética, mesmo que (talvez) por acidente.

Todo esse amor que inventamos para nós é um livro corajoso, subversivo, pungente e bem escrito. Prêmio muito merecido.

 

 

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Livro: Todo esse amor que inventamos para nós

Editora: Biblioteca do Paraná

Avaliação: Muito Bom

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