O lado mais trivial da vida

Os contos de Olhando pro nada, lembrando de tudo, estreia na ficção de Bruno Braga, são demarcados por obstáculos afetivos.

Relacionamentos impossíveis, flertes, autoenganos, desatamentos, paixões sem correspondência, conflitos de ordem anímica.

Todos os personagens estão em busca de um grau de emoção que depende do outro para (co)existir.

E se lançam de modo irrefletido ou ao encontro de um ponto latente.

É o caso do protagonista de “Carregador de lixo”, que abre o livro, no qual uma noite de insônia e a visão de alguém na rua confluem para uma avaliação existencial, assaltada por uma paixão adormecida que poderia torná-lo outro.

O eterno dilema do que a vida seria se a curva tivesse sido feita para o outro lado.

O texto seguinte, “A voz”, acompanha uma dupla que se mantém na fronteira da amizade por receio de algo mais profundo estragar a relação.

“Cinema” se constrói numa tensão entre olhares dentro de uma sala de cinema, outra vez tratando de uma história a dois que depende de um gesto para dar partida ou ficar na intenção.

“Outro planeta” e “Insuficiência” fogem do território indistinto do cotidiano, situando-se no espaço sideral e em Tóquio, respectivamente, embora sigam a regra do mesmo assunto de apuração.

A monotemática é uma opção arriscada, pois, no curso da leitura, tende a cansar.

O autor cearense, no entanto, trabalha bem a repetição.

Seus contos são enxutos e ágeis, articulados por frases marcadas pela ação ou por um fluxo encadeado de consciência.

“A ligação” é o passo a passo de um indivíduo que espera um telefonema, formulando todo um circuito de pequenos acontecimentos que conduz ao ato final.

Outro aspecto que se destaca é a adoção de um andamento regular, sem escala de intensidade ou preparo para reviravolta.

É a narrativa pela narrativa, organizada de modo a registrar a passagem de quadros que se encaixam ao feitio de um fotograma.

Os textos centrais se assemelham muito, desta (e por esta) forma.

Um passeio de barco, a rotina da semana, a distância entre amigos.

Os protagonistas tentam estabelecer um sentido de conexão e/ou de comunicação, vivendo essas experiências diversas dentro de um mesmo contexto.

O amor é o elemento nuclear, frequente, incorrendo a perdas e conquistas através de uma perspectiva que não decai no melodrama e na pieguice.

Olhando pro nada, lembrando de tudo foca no trivial da vida para nos lembrar que o extraordinário é coisa de literatura.

 

 

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Livro: Olhando pro nada, lembrando de tudo

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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