O legado dos crimes de um homem

O amor, esse obstáculo é o volume final da trilogia de romances da pernambucana Micheliny Verunschk, iniciada com Aqui, no coração do inferno, de 2016, e entremeada por O peso do coração de um homem, de 2017. Naturalmente, é o livro mais autorreferencial, utilizando-se dos acontecimentos passados como motor narrativo.

Vale, portanto, registrar que é impossível escrever uma resenha sem mencionar momentos-chave dos primeiros títulos. Para quem pretende iniciar a leitura do tríptico de Verunschk e é sensível a revelações, melhor parar por aqui, pois o que virá a seguir com certeza vai comprometer sua experiência de leitura.

Dado o aviso, é interessante notar também que, para aqueles que não leram as partes anteriores, o volume se sustenta de maneira independente. Mérito da autora, que encaixa informações pregressas na trama em curso para situar o leitor, sem criar pausas visíveis ou se embaralhar em didatismos.

Por outro lado, falta um arco robusto para o enredo, que dá continuidade a uma suspeita lançada no fim do segundo livro e reaviva um relacionamento inesperado ocorrido no primeiro. Sãos essas duas linhas paralelas que estruturam a história, embora sem o apelo atrativo de suas formulações originais.

A personagem Laura retoma sua função de condutora da trama. Na obra anterior, ela havia descoberto um envelope com uma lista de nomes de desaparecidos políticos, que indicavam que seu pai atuou na polícia de repressão e tortura da ditadura militar, sob o codinome de Capitão Garrote.

Sua desconfiança é que sua mãe também tenha sido vítima do regime. De modo que se lança a vasculhar esse passado, retornando à cidade de Santana do Mato Verde, onde ainda reside, na casa de sua infância, sua meia-irmã e sua cruel madrasta, agora arruinada pelo Alzheimer.

No tempo distante do primeiro livro, o pai era o delegado local. Certo dia, ele detém na própria casa um menino que cometeu assassinatos e comeu partes dos corpos. A adolescente Laura acaba se envolvendo com o prisioneiro, e fixa uma ligação que vai se reatar nesse terceiro livro.

Entre o magnetismo do desejo proibido e a escavação pelo baú de ossos, a protagonista circula por esses fragmentos do passado, que são resíduos da história recente da América do Sul, um período de opressão e vilania, um mecanismo de apagar identidades criando rombos nas memórias pessoal e coletiva.

Verunschk faz um trabalho de abastecer sua ficção com fatos, eventos e nomes extraídos da realidade concreta, de modo a remontar o pano de fundo a frente do qual sua narradora busca a verdade sobre sua família, o paradeiro da mãe e o horror ao qual está vinculado o pai numa forma de explicitar seus crimes evaporados pelo tempo.

É uma saga doméstica sobre justiça, que enveredando-se por essa memorabilia, fabrica recortes argumentativos sobre violência, desumanização, legado e, ao dar espaço também para a brutalidade que amoldou o passado do menino canibal, maternidade. De modo geral, a pulsão feminina é o magma da trilogia.

O amor, esse obstáculo configura-se, portanto, um desfecho correto para esses romances de encaixe que experimentaram gêneros, estilos, composições formais e andamentos, mas foram permanentes na adoção de uma prosa clara, de boa fluência e admirável capacidade de amarração e poder imaginativo.

Um retrato do Brasil de antes e de agora. Um universo ficcional que não contém o conflito de seu enredo dentro de seus limites paginados. Por espantoso que possa parecer, existem ainda hoje imbecis manipuláveis saudosos do tempo da repressão, declara uma personagem. O futuro (lamentavelmente) dará continuidade ao tríptico de Verunschk.

 

 

***

 

 

Livro: O amor, esse obstáculo

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

Um comentário sobre “O legado dos crimes de um homem

  1. Só li o primeiro, que gostei muitíssimo (inclusive, à época, você me esclareceu pontos de minha leitura, que andava equivocada). Estou com o segundo aqui e preciso adquirir o terceiro. Já já faço isso. Ótima resenha. Abraço.

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