Entre o Tempo Grande e o Tempo Pequeno

Machamba, de Gisele Mirabai, estrutura-se a partir da dinâmica de um quebra-cabeça.

E não se tratam apenas de partes dispostas de modo avulso que, durante a condução do enredo, encaixam-se devidamente.

Em seu romance de estreia, a autora mineira arma um mecanismo no qual as transições temporais e as espaciais são norteadas pela necessidade de sua protagonista em decifrar a própria existência, montando um mapa autorreferencial demarcado por coordenadas entre passado e presente.

É um exercício de literatura complexo, mas que flui com maciez por conta da escrita fina, magnética, e o domínio total da composição estética.

Mesmo que marcada por avanços e recuos escorregadios, mesmo que encerada por um tratamento metafórico.

Machamba é uma personagem menina/mulher em suspensão sobre duas fases: o que chama de Dia do Antes e de Dia do Depois.

Uma cissão causada por um acontecimento traumático na adolescência, numa fazenda em Fiandeiras, Minas Gerais, que servirá de bússola para a narrativa.

A partir desse ponto de contundência e de transformação, ela se lançará numa viagem cada vez mais distante dessa casa nuclear, passando por Belo Horizonte e, na vida adulta, por países como Inglaterra, Grécia, Turquia, Egito, Índia.

Nessa odisseia errante, irá acumular experiências cognitivas e sexuais de diversas fontes e parceiros, contudo sem qualquer indício de envolvimento pessoal, pois sua frequência para o amor é tão nula quando seu sentido de pertencimento, sua impossibilidade de se enraizar em qualquer outro lugar fora do território da infância.

Não fixa residência no mundo, pois não reside mais em si. Idealiza os dias a aspectos de fundo emocional que se correlacionam ao Tempo Grande e ao Tempo Pequeno.

Machamba circula por cenários estrangeiros presa a essa fita da memória amarrada a uma árvore ancestral, de onde deflagram-se cenas bucólicas, cotidianas, pueris, assaltada por esse trauma intratável, a que denominada de Elo Perdido, envolvendo a ela, seu pai e um personagem incidental, o qual a narrativa leva em segredo até o fim.

Mirabai estabelece como característica fundamental de seu romance esse modo contínuo de decifração, ganhando escala em introspecção e universalidade.

A história mental de sua personagem tem dimensão psicológica e apelo sensorial na mesma proporção que suas incursões por cidades do mundo entretecem um pano de fundo de verossimilhança geográfica, encadeando imagens que primam pelo esmero e pela vastidão.

Por trás desse movimento de passar e repassar, o texto ainda conserva alguns significados implícitos que se conectam à articulação da trama.

Quando criança, Machamba narra ter ganho um quebra-cabeça. Nesse mesmo período, seu pai se faz um leitor contumaz da Coleção das Antigas Civilizações do Mundo, que se torna (talvez involuntariamente) a sua rota de fuga na vida adulta, seu plano de sempre se lançar para frente.

Mas o que ficou para trás é a ponta de uma peça que se encaixa com o furo de uma outra e formam um castelo, um parque, um lago de patos. Juntas fazem uma cidade ou o mapa-múndi. E todas as peças têm furos e pontas e muitos encontros são necessários para que se possam ter uma história.

O que é a história de uma vida, afinal, senão o encaixe de peças do passado que formam um mapa para o futuro?

Com Machamba, Gisele Mirabai venceu o Prêmio Kindle de Literatura.

Um romance sobre uma mulher que arrasta sobre o mundo seu mundo da infância, seu novelo de menina que, por golpe do destino se partiu, mas se converteu num nó dentro de si impossível de desatar.

 

 

***

 

 

Livro: Machamba

Editora: Nova Fronteira

Avaliação: Muito Bom

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