As marcas no corpo e na sociedade

Situados em momentos distintos da antologia A aspereza da loucura, os contos “Memórias sobre uma garota morta” e “Come chocolates, pequena” colocam à mostra o domínio técnico e a versalidade do crítico literário e escritor paranaense Luigi Ricciardi.

Embora sejam enredadas pelo mesmo conflito, as narrativas se desenvolvem dentro de distintos contextos formais e tonalidades de apreensão.

Na primeira, que abre o livro, dois narradores articulam um diálogo impossível, em plano e contraplano. Um irmão revive ao mesmo tempo que transgride a natimortalidade de sua irmã. O que ela seria, o que ele é, o que viveriam juntos, todas as falhas que confluíram para a existência fantasmal.

É uma trama cosido com sensibilidade, num contraponto extremo ao segundo texto citado, um fluxo mental marcado pela secura e pelo amargor, no qual uma mãe atravessa o luto de uma filha morta numa circunstância inimaginável. A dor da narradora é palpável, golpeando o leitor com uma revelação final acachapante.

São narrativas sobre crianças mortas e personagens desmoronados. Um estado de ruína que será um elo contumaz entre os temas, denotando a habilidade do autor de construir personagens intensamente humanos, em suas dimensões psicológicas e na maneira de lidar com situações-limites.

“Menines” trata da descoberta do corpo, dando conta de uma adolescente, oprimida pela mãe evangélica, que tenta decifrar sua sexualidade. Suas aflições e medos conduzem o meandros narrativos com tamanha voltagem que, a certa altura, quando descreve o baque da primeira menstruação, a leitura adquire um efeito sensorial.

O mesmo ocorre com o pungente “Dedos finos”, sobre uma menina que passa a morar com os tios, depois da morte dos país, e sofre abuso sexual regularmente numa espécie de pagamento por ter sido acolhida. São circunstâncias de violência que se retroalimentam de violências desenterradas, traçando um círculo que se finda em tragédia.

Ricciardi trabalha com assuntos pesados que, muitas vezes, leva o leitor a engolir seco. É uma escrita calculada, repleta de artimanhas, que se adapta a diferentes formatos, sem perder intensidade. “Um parque de diversão na cabeça” circula um acontecimento ruim que o leitor sabe, porém a personagem em foco, não, e a tensão está em acompanhar a notícia aproximando-se dela. “Conversa com João Delatore” faz o caminho oposto, saindo de um lugar nebuloso para conduzir a uma revelação.

Alguns textos se distinguem por um estudo menos íntimo, debruçando-se sobre a sociedade atual com uma postura crítica, ou relacionando presente e passado. “Port-au-prince” rememora os casos de racismo contra os imigrantes haitianos no Sul do país, ao passo que “O estado que enterra esse país onde só os mortos enterram os mortos” resgata o período da ditadura militar para chamar atenção para as nuvens de cumbo que paira sobre o Brasil de agora; ou pior, para a escuridão absoluta que se insinua.

Dos treze contos, apenas um não funciona: “Aute”, que emula o comportamento de um autista. Nesse processo de interpretação livre, o autor se sai melhor em “O descobrimento do Brasil”, que se utiliza de elementos e nomes contidos na canção da Legião Urbana de maneira a formular um enredo envolvendo tragédia familiar a la von Richthofen.

A música, por sinal, tem um presença fundamental na antologia, introduzindo cada conto por meio de citações, que conduzem a um espaço onde as referências são esclarecidas nas tramas. Como um bom crítico, Ricciardi sabe da importância da leitura no engendramento da prosa ficcional.

 

 

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Livro: A aspereza da loucura

Editora: Publisher Editora

Avaliação: Muito bom

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