Teatro das pequenas corrupções

A peça As conchambranças de Quaderna, de Ariano Suassuna, é protagonizado por Pedro Diniz Ferreira-Quaderna, personagem oriundo de Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Por conta disso, todo o escopo artístico se formula através de uma combinação entre prosa literária e dramaturgia.

São três atos independentes, unificados pela presença de Quaderna, o tabelião de um cartório de notas, que se vale de artimanhas, conchavos, artifícios para dar conta de situações inusitadas nas quais se põem à prova os preceitos morais, a retidão sabotada pelas pequenas corrupções diárias.

No primeiro ato, “O caso do coletor assassinado”, o personagem cria um plano fúnebre para livrar um coletor de rendas, que surrupiou dinheiro público, das garras de uma Comissão de Inquérito. “Casamento com cigano pelo meio”, que vem em seguida, trata de duas irmãs prometidas que, na véspera da cerimônia, tem de lidar com o fato de um dos noivos decidir trocar uma pela outra. Ao passo que “O processo do diabo” envolve um defunto, um porco e uma possessão.

São três imbróglios articulados por esse protagonista astucioso que, fingindo estar em busca de uma solução altruísta, arma para tira proveito de tudo e de todos. Para quem correlaciona o nome de Suassuana automaticamente a Auto da Compadecida, traz à memória os ardis e as mentiras tramadas pelo personagem João Grilo.

A bem cuidada edição conserva as considerações e indicações do autor para o desenvolvimento do mise-en-scène e a movimentação dos atores, prenunciadas por breves relatos nos quais Quaderna se coloca como um narrador que desfila sua memórias, fazendo uma ligação temporal com Romance d’A Pedra do Reino.

As ilustrações de Manuel Dantas Suassuna realça o caráter arcaico da obra, provida de uma linguagem popular ao mesmo tempo que transcendental, sertaneja ao mesmo tempo que ibérica, que, como aponta Ester Suassuana Simões, no prefácio, marca questões de uma realidade dura, com a ingerência política, no modo mais crítico que a literatura promove, a união do trágico com o cômico.

 

 

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Livro: As conchambranças de Quaderna

Editora: Nova Fronteira

Avaliação: Bom

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