A babel particular de Sylvia Molloy

É comum reconhecemos traços de nossa ancestralidade por meio de características físicas. A cor da pele, dos olhos, dos cabelos; o formato do nariz, do rosto. Ao nos encararmos no espelho, enxergamos vestígios dos nossos pais, dos nossos avós; de uma linhagem geracional que vagou pelo mundo antes de se hospedar em nosso corpo.

Sylvia Molloy, no entanto, chama atenção para outro sinal de hereditariedade: a fala. No breve ensaio Viver entre línguas, uma das principais escritoras latino-americanas mapeia a própria história para assinalar o fator identitário de uma Argentina historicamente constituída pela correlação de idiomas e, ainda hoje, permeada por estrangeirismos.

Nascida em Buenos Aires, a autora se autodenomina uma trilíngue. Seu pai era inglês e sua mãe, argentina, descendia de franceses. Como conta: Primeiro falei espanhol, depois, aos três anos e meio, meu pai começou a falar inglês comigo. (…) O francês veio depois e não comemorou nenhum nascimento. Foi, antes, uma recuperação.

A partir dessa constatação embrionária, o texto funde memória e pensamento de modo a mensurar o alcance (íntimo e nacional) do plurilinguismo, incorrendo a episódios que denotam um valor afetivo ao mesmo tempo que um sentido de fundação. Uma análise de foro existencial, que se comunica com o país na condição de uma entidade coletiva, uma comunidade linguística.

Molloy, assim, regressa ao período da infância, conduzindo suas lembranças pelo espaço da escola e da casa, nos quais identifica a soberania do inglês sobre o espanhol, e o desconsolo da mãe em não ter tido a possibilidade de conservar o francês em si. A hierarquia do inglês também é apontada na predileção por determinados nomes na Argentina.

Meus pais diziam que nos haviam dado apenas um nome (referindo-se à irmã Ana) para não nos complicar a vida. Mas se enganavam: para o bilíngue, a complicação é a vida.

Tal afirmação pontuará sua relação com os integrantes da sua família, e servirá ainda de base para desfilar uma série de pequenos relatos envolvendo pessoas comuns (imigrantes hispano-americanos nos Estados Unidos) e escritores assaltados pela segunda língua, a exemplo dos argentinos Guillermo Hudson e Alan Pauls.

O que chama do “fantasmamento de um idioma pelo outro” estará no processo de encontrar demarcações (livros, filmes, músicas) nessa incursão pelo tempo, na busca por definir qual língua lhe confere identidade, apesar de viver há décadas em Nova Iorque. Todo indício de certeza, diz Molloy, “tinge-se de desconfiança, desassossego”.

Pergunto-me qual será a língua da minha senilidade – se ela me pegar – e em que língua morrerei. Serei trilíngue, ou nos despojos que eu exprimir prevalecerá uma língua sobre as outras? Por outro lado, alivia-me o fato de que eu, pelo menos uma vez, não precisarei escolher, revela.

Viver entre línguas, no fim das contas, é um texto aberto, conduzido por uma voz delicada e sagaz que, ao refletir sobre a babel que define a maneira de se relacionar com o mundo, nos faz pensar sobre as palavras com as quais nossos antepassados significaram suas vidas e nunca saberemos, nunca teremos a chance de traduzir.

 

 

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Livro: Viver entre línguas

Editora: Relicário

Avaliação: Bom

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