A cidade em sua maquinação ordinária

Num canto da Lapa, nas imediações da escadaria Selarón, está o Beco do Rato. Antigo endereço de nomes como Chiquinha Gonzaga e Madame Satã, a área é hoje o epicentro da boemia carioca. Pelos bares e inferninhos locais, convivem prostitutas, engravatados, mendigos, playboys, a lei e os foras da lei.

São esses personagens que povoam a primeira parte de O beco do rato, seleta de contos que marca a estreia do paulista José Petrola.

Radicado no Rio de Janeiro há seis anos, o autor processa, através da acuidade de seu olhar forasteiro, a cidade em sua maquinação ordinária, no baixio das classes sociais, onde estão os seres sem bronzeado, invisíveis, fazendo trânsito por um território de violência e marginalização, embora inflacionado em seu mercado imobiliário, como atesta um dos inquilinos que passam pelo apartamento decrépito, no bairro do Catete, em “Aluga-se”.

O Rio que se mostrava para Alex, diferente do Rio das músicas, não era uma cidade solar, mas um beco soturno, onde nunca chegava a luz do sol. Uma cidade cheirando a vazamento de gás. (…) Uma cidade que diz amar o sol, mas, na verdade, o odeia, construindo seus prédios com as janelas viradas para dentro.

Petrola mapeia essa fauna mesclada, das senhoras que fazem yoga na areia da praia do Flamengo, à vista do Pão de Açúcar, aos trombadinhas que praticam pequenos roubos. Ali o vagabundo que roubou minha bicicleta!, aponta um marombado. E a ficção captura a realidade aos moldes de uma câmera que gira em 360º, encadeando cenas que se confluem para a resolução de “Saudação ao sol”, breve narrativa sobre justiças, injustiças e justiçamentos.

“Torrada Petrópolis e suco de laranja” se ocupa de expediente semelhante, mas com um olhar mais concentrado, uma 3X4 da rotina do burocrata Morais, mastigando porcarias pelo caminho do trabalho, às seis da manhã, ônibus lotado, todos os dias. Não é uma história das ondas de Copacabana, mas uma história de marquises de prédio e avenidas lotadas de ônibus barulhentos e inquietação, traduz um narrador que insurge com uma flexão autoral.

É interessante chamar atenção para esse efeito, pois, se no conteúdo os textos se constituem através da observação do real, a forma prima por uma versalidade que monta a tudo tal a confecção de um mosaico. Fragmentos se encaixam dando conta da montagem de trechos de histórias ou de momentos recortados desse cenário carioca.

Funciona. Sobretudo por conta de efeito de movimento adotado pelo autor. No conto supracitado, “Aluga-se”, o compasso da tessitura está atrelado à passagem dos inquilinos pelo apartamento, ao passo que “A receita” faz o feitio de uma narrativa-ciranda, emendando historietas cujos pontos de junção rementem a um painel psicológico.

Petrola ainda explora certos gêneros, construindo a partir de uma chave detetivesca o ótimo “O mistério dos dedos”, e brincando com a metaliteratura, no texto que empresta nome ao livro, no qual a aventura de duas amigas pela noite carioca se conecta ao conto de um dublê de escritor, sugerindo certas existências ficcionais.

Por essas características, a leitura dessa primeira leva é mais estimulante, magnética e provoca, no leitor, a sensação de estar lidando com um universo de seu conhecimento.

O contrário ocorre com a parte seguinte, na qual a frequência que irradia as narrativas baixa e a atmosfera adquire um aspecto mais soturno, opressor. O exemplo máximo está no conto “O relatório K., que intitula a seção, livremente inspirado em O processo, de Franz Kafka. “O filtro de pesadelos” está nessa mesma linha, acompanhando um homem sufocado pelo trabalho e pela rotina familiar, que busca uma saída de liberdade através de nossa porção animalesca.

Temas de caráter social também ganham espaço, tratando da relação entre patrão e operário, trabalho e educação (num tom fabular), e a falência da saúde pública, no curto embora demolidor “Ramona”, sobre a via crucis de um casal para salvar a vida de sua filha.

O bom domínio literário se mantém, contudo são espécies notadamente distintas. Especialmente a terceira, composta por apenas dois contos que dão continuidade à perseguição temática de natureza social, agora focada na questão indígena. Aqui o autor experimenta com intensidade a forma. Não é ruim, mas é a parte mais fraca.

O beco do rato, enfim, revela um autor com boas qualidades de contista, que acerta em cheio quando circula pelo ambiente que elegeu como principal. Quem diria que um paulista conseguiria capturar tão bem as idiossincrasias de um galeria de tipos particulares que constituem a fauna carioca!

 

 

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Livro: O beco do rato

Editora: Jaguatirica

Avaliação: Bom

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