Fábula sobre guerra, amor e literatura

Pela compostura e pelos aspectos de enredo, O menino que comeu uma biblioteca parece emular os recentes bestsellers internacionais que reconstituem a Segunda Guerra Mundial pelos olhos de uma criança. A gaúcha Leticia Wierzchowski, no entanto, transcende o apelo dos fatos, formulando seu romance numa chave inusual: a fantasia.

No final dos anos 30, numa estância no Uruguai, a menina Eva e seu irmão caçula vivem sob a tutela da avó, depois de serem abandonados pela mãe. Florência, que é “velha e atarefada demais para ter paciência com crianças”, joga tarô para arrecadar um dinheiro extra, com o qual financia o vício do cigarro e pequenos caprichos.

Eis que, numa tarde quente de verão, Eva pega o baralho da avó e resolve brincar sob a sombra de uma figueira ancestral. Ao manipular as cartas, subitamente um manto de escuridão cai sobre seus olhos, e ela tem a visão de um menino magro e loiro, tremendo de frio num canto de uma imensa biblioteca, enquanto do lado de fora, na “pequena vila onde nevava e o vento soprava com fúria”, tropas de “um terrível exército avançavam com seus tanques e soldados de capacete e fuzil”.

O nome do menino é Jósik Tatar, tem oito anos e reside em Terebin, interior da Polônia. Uma cidade tão minúscula que não passava de uma aldeia. Ali, vive com seus pais, embora passe mais tempo com o avô, Michael Wisochy, um homem apaixonado pelos livros, protetor de uma biblioteca exuberante, recheada de clássicos e raridades.

São melhores amigos. E, enquanto Wisochy cobre a infância do neto com ensinamentos luminosos sobre a vida e a literatura (Os livros são pessoas passadas a limpo), o embrião das trevas começa a ser germinado nos arredores, em notícias transmitidas pelo rádio sobre articulações políticas de um chanceler alemão chamado Adolf Hitler.

A partir daí, o romance se reparte em dois planos paralelos que, por sua vez, subdividem-se em linhas narrativas e modelos de narração. A base da trama será o movimento das histórias de Eva e Jósik, conduzidas (cada qual à sua realidade) pelos processos prematuros de formação desses protagonistas, incididos por tipos de guerra na apreensão do futuro.

Sendo assim, o controle do espaço ficcional ora está com a menina (que, depois da visão, segue acompanhando a rotina do pequeno polonês em capítulos, através de sonhos); ora com o menino (por meio de anotações num diário); e ora com um narrador em terceira pessoa que relata o conflito e suas consequências para cada um dos personagens.

Wierzchowski consegue articular, com dinâmica e prosa segura, esses recortes de caráter íntimo sobre o pano de fundo histórico. Ainda que cobre do leitor a dispensa de várias conveniências e uma enorme credibilidade imaginativa, a autora constrói uma ambientação imersiva, caracterizada pela verossimilhança dos acontecimentos reais e da atmosfera de tensão causada pelo domínio nazista, em especial quando o terror dos campos de concentração começa a ganhar corpo.

Da mesma maneira, a figuras femininas são fortes e críveis em seus aspectos humanos e natureza psicológica. Não só Eva, agente e testemunha do seu tempo, principal condutora do texto que, por vezes, fala diretamente com o leitor, mas também Florência, e Flora e Raika; respectivamente, mãe e interesse amoroso de Jósik.

A despeito do uso recorrente de metáforas e de um argumento centrado no drama, a linguagem não cede ao pieguismo, mesmo quando o jovem polonês começa a ser visitado e aconselhado pelo fantasma do avô. Aliás, essa é uma das muitas referências que o romance evoca de clássicos universais, a exemplo de Shakespeare e de Kafka.

Próximo ao fim, um golpe do destino pressiona os planos paralelos a entrarem em cruzamento, provocando um novo sentido para a história. É um recurso que traz para a narrativa um aspecto mais realista, indo de encontro ao conceito fantasioso da história, porém que possibilita uma interpretação figurada do que se viu e se viveu.

De fato, o que Wierzchowski cria, com O menino que comeu uma biblioteca, é uma fábula moderna sobre a guerra e, principalmente, sobre o amor. O amor pela vida, entre pessoas que resistem e sonham, o amor pelos livros que excede os limites que nos impõe a vida.

 

 

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Livro: O menino que comeu uma biblioteca

Editora: Bertrand Brasil

Avaliação: Bom

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