Deus e o diabo na terra do sol

Uma tensão intoxicante, que cresce frase a frase, faz da cena introdutória de O vendedor de chuva, romance de Fred Vidal, uma das mais viscerais da literatura brasileira.

Acostada a uma mata, no interior paulista, uma pequena construção abriga marido, mulher, duas filhas e um filho caçula. Eles almoçam, sentados à mesa sob o peso de um silêncio mortiço, palpável, que vai se descamando pouco a pouco, no regresso no tempo.

Minutos antes, o menino tinha ouvido, às escondidas, o pai e a mãe discutirem. O vaqueiro, aflito, confessava ter presenciado o patrão e um capanga acertarem a ocultação de um cadáver. Ele agora era uma testemunha inesperada, e temia pela sua vida. Ou pior, pela vida de toda a família.

Resolvem, porém, fazer a refeição sem alarmar os filhos, desconhecendo que o caçula tinha furtado a conversa. A tensão é tal que, em dado momento, julgam ouvir as pancadas do próprio coração. Daí, ressoa, num crescendo, o tropel de cavalos. O homem se levanta, corre ao quarto e pega o revólver.

Armado, espera o som do arreio. Espera o atrito das botas no chão de terra. Armado, espera, para defender sua família. Mas é surpreendido pela porta que se desmonta num chute, e a casa é invadida por uma explosão de violência, uma sequência de brutalidade desmedida que, por uma manobra de sorte, deixa um sobrevivente.

Anos depois, a história tem como cenário o povoado de Taboquinha, no sertão mineiro. Suspensa entre a religiosidade e o fantasma da fome, a população segue numa marcha inútil de foices e enxadas à espera da chuva, contando com o auxílio divino, Deus não os deixaria desamparados.

Nesse rasgo de terra desenhado pela iconografia da seca, episódios dão conta do martírio de personagens delineados a traços primitivos da condição humana, que irão testemunhar ou fazer parte de um circuito de mortes enredado por uma figura obscura que busca vingança.

Vidal encadeia os capítulos a princípio no feitio de uma antologia, mas que, no terço final, irão se revelar partes de uma única trama, cujo eixo central se move pelo dínamo das circunstâncias descritas na cena de abertura. Trata-se de um romance que fraciona sua contextualização de ambiente e personagens, mesclando uma série de conflitos até entregar o conflito principal, aquele que vai estabelecer um elo entre começo e fim.

Nesse aspecto, o autor se sai muito bem, pois se preocupa com a execução de cada trecho de forma ambígua, ofertando um desfecho momentâneo ao mesmo tempo que deixando a intenção de um horizonte à frente. Também é notável o cuidado especial na ordenação das frases; no posicionamento das palavras, de modo a transmitir uma certa musicalidade.

Sendo assim, fica explícita a influência do Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas, na frequência pulsante da oralidade constituída pelo linguajar sertanejo, por esse uso de um vernáculo pautado pelo arcaísmo, caracterizado por um modo de se expressar muito distinto que compõe imagens vigorosas, de qualidade e textura pictóricas.

Com isso, ainda que o texto se oriente pela observação da realidade, ganha eminência um tom fabuloso, uma metafísica de compreensão sobrenatural que dá espaço para, nesse território de violência, fé, danação e aridez, perceber a tudo também sobre um fundo alegórico onde se digladiam vida e a morte, sagrado e o profano.

O vendedor de chuva está na galeria das travessias regionais do personagem que percorrem um sertão interior, construindo com riqueza e complexidade os signos da seca no esteio do drama do homem que sela seu destino pela vingança, tendo a companhia de Deus e do diabo na terra do sol.

 

 

***

 

 

Livro: O vendedor de chuva

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

4 comentários sobre “Deus e o diabo na terra do sol

  1. Que resenha ótima. Este livro merece mesmo. Bom vê-lo recever atenção. Conheci o romance quando ainda em fase dos originais.
    Fred é um escritor muito dedicado e talentoso.
    Grande abraço.

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    1. Que resenha ótima. Este livro merece mesmo. Bom vê-lo recever atenção. Conheci o romance quando ainda em fase dos originais.
      Fred é um escritor muito dedicado e talentoso.
      Grande abraço.

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