Narrativas de descoberta e aceitação

As coisas, livro de contos de Tobias Carvalho, ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2018.

Em sua estreia, o autor porto-alegrense (de apenas 23 anos) explora o universo das relações homossexuais, através de um foco transitório que apreende da complexidade dos conflitos familiares e de auto(re)conhecimento até a efemeridade do sexo casual ativado por meio de aplicativos de celular.

São contos que transitam entre o drama afetivo e o aspecto erótico, diversificados em formatos que vão da história mental ao blocos de diálogos dispostos em desordem.

Visivelmente, temos um autor calibrando a sua escrita, experimentando, tateando na busca de uma voz própria. Que, embora apresente uma prosa simples e uniforme, escreve de maneira intuitiva e carregada de verdade. E aí que reside o impasse para o resenhista: como lidar com o que está por trás dessa verdade?

Todo exercício de crítica é uma soma de conhecimento técnico e experiência subjetiva. Quanto ao primeiro, não há o que se discutir: depende de estudo e leitura. O caso é que o segundo é envolvido por uma camada muito sensível, volúvel, passível de qualquer influência, em especial as externas.

No material de divulgação do livro, há o recorte de uma entrevista com o autor na qual este revela que os textos foram “inspirados em suas experiências pessoais e de amigos”. Uma informação que não é mencionada em qualquer momento da obra, mas que, acreditem, faz muita diferença na maneira de se relacionar com os contos.

Tendo em mente de que se tratam de conversões da matéria autobiográfica em matéria ficcional (depoimentos, desopressões), as narrativas ganham potência e densidade, pois se associam ao espectro da vivência real de jovens lidando com descobertas, frustrações, impulsos e libido no curso de seus processos de formação.

Na realidade do livro, contudo, essa verdade não funciona bem. Há dois problemas pontuais: todo o discurso e os movimentos de enredo dão a ideia de se tratar de um mesmo personagem agindo, de forma direta e indireta, na formulação de cada narrativa, tal qual uma costura descompassada de cenas de seu cotidiano.

Personagens secundários que aparecem num texto reaparecem em outros, situações se repetem ou se complementam.

E aí está uma questão realmente delicada (problema II): todo o conjunto se estrutura de modo a se constituir muito mais um romance fragmentado que o livro de contos pelo qual foi premiado. E tal noção não se deve somente à unidade temática ou à ambientação, e sim à maneira do personagem central lidar com o mundo à sua volta.

Visto como um ser exclusivamente ficcional, o protagonista não transmite legitimidade diante de tamanha turbulência interna e externa; falta tensão, escala de conflito em suas atitudes. Não teria problema se fosse apenas esse dispositivo vazio, um vetor de prazer imanizado por encontros descartáveis. No entanto, esse trânsito narrativo superficial, a todo momento, sofre paradas para mergulhos profundos na relação familiar, na dificuldade de pertencimento ao espaço da casa e da sociedade.

Esses momentos rendem os melhores contos, em contrapartida criam peças que não se encaixam dentro da proposta de ser o mesmo personagem. O carioca Alex Andrade, com seu Amores, truques e outras versões, de 2014, percorre esse mesmo universo, usando do recurso dos aplicativos de encontros, com mais coesão e domínio técnico.

Essa é a grande pendência, afinal: falta domínio técnico a Tobias Carvalho. O que é perfeitamente normal, tratando de um autor muito jovem, que debuta na literatura.

Com um olhar mais apurado e abrangente, os problemas do livros seriam facilmente resolvidos com: (livro contos) o estabelecimento de personagens distintos para cada conto, ligando-os pela natureza do universo em que estão inseridos; (romance de um personagem) a aposta numa narrativa linear, ou em algo mais próximo a isso.

Da forma em que foi cerzido, o livro oferece uma leitura que cresce diante do conhecimento prévio que há partes da história do autor ali; o que viveu, o que ouviu, o que sentiu. Desse modo, contos fortes, a exemplo de “O pai”, torna-se uma experiência comovente.

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Livro: As coisas

Editora: Record

Avaliação: Regular

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