O etimologista apaixonado

Três assaltantes invadem uma casa e, durante o roubo, a situação sai de controle e residentes são baleados, entre os quais um homem, executado com um tiro no peito. Parece o enredo de “Feliz ano novo”, conto que abre o livro homônimo, de 1975, de Rubem Fonseca, mas aconteceu de fato, em Curitiba, em setembro deste ano.

Na esteira do brutalismo que marcou as primeiras obras do escritor mineiro, a máxima do “a vida imita a arte” nunca foi tão representativa quando relacionada à sociedade brasileira. Pessoas que atropelam outras de forma deliberada, crimes de adultério, clientes chantageados por travestis não mais escandalizam, pois ocorrem a toda hora, infestam os jornais, de maneira banalizada. Perdemos o senso de absurdo. E a violência explícita, aquela que era restrita aos livros, hoje virou conversa da fila do pão (ou do grupo da família do WhatsApp).

Rubem Fonseca, com suas narrativas traçadas sobre o fio da navalha, não choca como antigamente. O título de inimigo “da moral e dos bons costumes” agora cabe a Natalia Borges Polesso. Na última prova do Enem, uma questão de interpretação do conto “Vó, a senhora é lésbica?”, da autora gaúcha, virou motivo de polêmica por tratar da homossexualidade feminina, numa avaliação federal voltada ao público jovem. A família tradicional brasileira protestou.

Mas, peraí, estamos falando de Rubem Fonseca, o principal contista brasileiro em atividade, aquele que influenciou (direta ou indiretamente) uma infinidade de autores, o papa do gênero. Aos 93 anos, Fonseca acaba de lançar Carne crua, uma coletânea de 26 contos que, se por um lado não se caracteriza pelo esperado alto fluxo de brutalidade e testosterona, por outro tangencia temas considerados espinhosos para a sociedade do politicamente correto. Estão ali, na surdina. Preste atenção.

Está certo que alguém pode levantar a voz e reclamar que, não é de agora, muitos personagens de Fonseca são machistas, hedonistas, preconceituosos, etc etc. Mas são livros escritos em outras épocas, não um lançado em pleno 2018, quando um conto sobre uma vovó lésbica escandaliza as corujas moralistas das redes sociais.

Mas será que o nonagenário Rubem tem consciência dessas transformações de conduta? Vejamos um trecho do (ótimo) conto “Oropa”:

Hoje ninguém lê livros, todo mundo tem coisas melhores e mais fáceis para fazer, ver televisão, andar de carro, cheirar cocaína, fumar maconha, tomar uísque, falar no celular, mandar mensagem no WhatsApp, foder – foder não, ninguém mais fode, quem quer ter filho faz inseminação artificial. Foder saiu de moda.

Sim, leitor, ele sabe muito bem onde espetar a ponta da faca. E, diga-se de passagem, com uma perícia invejável.

Há vários momentos em que um comentário acende o sinal de alerta, para desviar bem no limite do que poderia ser considerado “inadequado”. O peso narrativo pode não ser a marreta de outrora, contudo o estilo continua firme e inigualável; nenhum de seus imitadores têm colhões para escrever como Fonseca.

Mesmo quando entrega historinhas de amor um tanto sem sal, ou flerta com algo da forma poética.

O livro, há de se dizer, começa numa chave baixa, aumentando a tensão em contos como “Boceta”, “Boceta – parte II” e “Cafetões”, depois amortecendo para o humor de “Cornos”, até alcançar a frequência máxima (nessa parcela inicial de 10 contos) com “Carne crua”, sobre um sujeito obcecado por carne crua, que bem poderia constar em Secreções, excreções e desatinos, de 2001.

A partir daí, a boa qualidade se estabelece, sequenciando narrativas sobre sexo, violência e crime, num revivalismo dos trabalhos de início de carreira e de um passado mais recente (Histórias de amor apud Pequenas criaturas), no qual figuram a velha galeria de indivíduos cafajestes, marginais, pulhas, assassinos, entre outros.

Em tempo, os leitores familiarizados com a obra de Fonseca ficarão surpresos com o retorno de um personagem; e não é o Mandrake.

Os textos ainda se ocupam de novas obsessões, como a atração por doenças (uma certa hipocondria, Rubem?) e o conhecimento do amor. Causa estranhamento ainda a tendência verborrágica da maioria dos narradores de abrir parênteses em seus relatos e explicar a origem de uma ou mais palavras associadas ao tema central. A princípio, pode parecer um tipo de artifício para dar recheio ao conto, porém, mais para o fim, um personagem “comenta” que precisa comprar um dicionário.

Como disse, está tudo ali, na surdina. Bem colocado. Preste atenção. Não é porque temos um Rubem Fonseca menos explícito, que a chegada da sutileza vai abalar seu posto de melhor contista em atividade no Brasil. Lembre-se: você pode concordar ou discordar, mas nunca praguejar contra o papa.

 

 

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Livro: Carne crua

Editora: Nova Fronteira

Avaliação: Muito bom

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