A escrita enquanto jogo de xadrez

Quem move as peças, do argentino Ariel Magnus, estrutura-se a partir de um estratagema narrativo fascinante, previamente apresentado ao leitor numa nota de advertência: essa novela é uma obra de ficção, porém muitas de suas personagens provêm deliberadamente da realidade, incluindo aí a realidade fictícia da literatura.

Ou seja, não se trata da livre transferência da realidade para a ficção, mas da configuração de um espaço onde verdade e fabulação se fundem, estabelecendo uma convivência atemporal entre figuras públicas reais, personagens criados pelo autor e personagens emprestados de outros livros.

O processo de escrita é tão engenhoso que, em dado momento, o narrador (o próprio Ariel Magnus) deixa seu posto de locução e se converte também em agente dos acontecimentos em curso.

O dispositivo de enredo é o diário de Heinz Magnus, avô de Ariel. Descoberto pelo autor de forma a acessar sua ancestralidade, os escritos se ocupavam de reflexões, poemas e registros da fuga para a Argentina, na metade final dos anos 1930, motivada pela perseguição nazista aos judeus.

São relatos íntimos de valor documental ao mesmo tempo que literário, pois se desenrolam à tutela de um desejo latente de Heinz de ter sido escritor.

Imergindo nessas páginas, Ariel cumpre a vontade de seu avô, dando extensão a esses recortes históricos de caráter íntimo e coletivo, na colagem de fatos que compõem seu universo híbrido. O primeiro deles é o torneio (real) de xadrez, que ocorreu em Buenos Aires, em 1939, nos preliminares da Segunda Grande Guerra.

Da competição internacional, a novela (que conta com uma excelente tradução de Fernando Miranda) convoca a enxadrista alemã Sonja Graf, “a primeira mulher que poderia disputar o cetro com a eterna campeã”, a tcheca Vera Menchik, disposta a usar de qualquer arma para conseguir a vitória, “incluindo a confissão íntima”.

Esse conflito particular se conecta ao plano central, suscitando algumas linhas narrativas: o desenrolar do torneio de xadrez, realizado no teatro Politeama; o passado de Graf, incluindo uma condenação absurda referente a um fato mais absurdo ainda; e os encontros com outros jogadores e com o próprio Heinz.

Entremeados a esses momentos, breves episódios dão conta da operação imaginária de Ariel. Mirko Czentovic, protagonista de A novela de xadrez, do austríaco Stefan Zweig (“escritor modelo para seu avô”), é colocado na disputa do torneio; Emilio Renzi, alter ego do argentino Ricardo Pligia, trabalha como o periodista pautado a cobrir o evento; e outros escritores fazem aparições pontuais (a exemplo de Borges, Cortázar e Macedonio Fernández), reconstruindo um painel sociocultural da Buenos Aires dessa época.

O que Ariel faz (e de maneira magistral) é uma tensa costura entre a história da humanidade e a história que existe dentro da novela, fabricando um complexo e multifário tabuleiro de xadrez cujas peças se deslocam nesse movimento de avançar por casas que o aproxime (fisicamente) ao seu avô.

Pois bem, é regra fixa desse jogo que a peça tocada também tem de ser movida. Nesse outro tabuleiro que todo jogador tem guardado — o interno —, as peças podem ser movidas para frente e para trás quantas vezes quiser, incluindo as peças do adversário, para que se possa calcular com antecipação como as próprias peças reagirão diante de cada eventual resposta. Porém, uma vez que decidimos fazer um movimento e damos ordem ao braço para fazê-lo, não se pode voltar atrás. O fato de que nossa mente seja uma rainha não invalida que nosso corpo seja um peão, o narrador explica.

Por isso o uso da literatura para acessar o passado. Pois, tal como o xadrez, a arte literária carece de uma estratégia para se alcançar o objetivo final que, no caso de Quem move as peças, parte da investigação por livros, autores e fragmentos da memória de modo a encontrar a chave de acesso a um núcleo afetivo recortado sobre um fundo simbólico.

Sim, há a busca por inventar uma trama pessoal, mas também uma vigorosa alegoria sobre a guerra; o torneio entre nações numa alusão aos primeiros conflitos entre a Alemanha nazista e a Polônia, a Europa que em pouco tempo seria tomada de assalto pelo exército de Hitler; enfim, o motivo de Heinz Magnus ter se exilado na Argentina.

Uma partida de xadrez pode representar uma disputa pelo mundo, o movimento por um mundo ancestral, um livro que se movimenta para fora de si.

 

 

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Livro: Quem move as peças

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito bom

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