Um tecido de fios frouxos

Entre as mãos, da petropolitana Juliana Leite, inicia-se com o acidente que lança ao coma a tecelã Magdalena. Divido em três partes, o romance, que ganhou o Prêmio Sesc de Literatura 2018, dedica a sua primeira ao período de internação hospitalar, contado pelo ponto de vista do namorado da vítima.

São observações sobre o curso dos fatos (procedimentos médicos, chegada de amigos e de parentes), alternadas a estados de consciência e a revisão de cenas da vida a dois. Mais à frente, a aparição de uma voz feminina dá conta de um passado de abuso vivido pela protagonista.

A autora aposta numa complexidade formal que se arma de representações do enredo. A estrutura fragmentada retrata o caos psicológico que acomete o narrador, tomado de assalto pelo choque do momento, bem como emula um tecido de fios frouxos, que destrançam tempo e espaço, realidade e memória, buscando um sentido ou não.

É um experimento de alto risco, que requer habilidade e domínio, porém que não se cumpre. E o problema está mais no conteúdo que na forma.

Não há mal em montar um romance a partir de cortes textuais desordenados, que se encadeiem no deslocamento por entre camadas, oferecendo alguns planos de leitura. Para ficarmos na galeria de vencedores do próprio Prêmio Sesc, Casa entre vértebras, do goiano Wesley Peres, é um exemplo potente dessa estruturação repartida e labiríntica.

Juliana se sai bem nesse quesito, não há duvida; a questão é que falta musculatura para seu enredo, que se desenrola numa rasa superfície, amortecendo todas as chances de gerar impacto, mesmo quanto toca em assuntos delicados como a violência na infância.

A autora incorre numa tendência comum aos jovens autores contemporâneos de produzir um texto descolado, que visa trazer um charme imagético à própria escrita, mas que não contribui para a robusteza da trama, para criar níveis de interpretação (incluindo os simbólicos) que transmitam o mínimo de ressonância.

As inquietações são sobremaneira banais, os conflitos se esvaziam na exploração das miudezas, de uma memorabilia afetiva que (talvez) faça sentido (de algum modo relevante) para a autora. Para o leitor, soa vago e desestimulante, sobretudo por conta das quebras bruscas de tom entre os fragmentos, que não se encaixam. A certa altura, por exemplo, diante da notícia de um agravante no quadro clínico da namorada, o narrador fica pensando sobre o remédio que esqueceu de pingar na água do peixe.

O resultado é o comprometimento de todos os elementos narrativos, sendo o andamento o mais problemático.

Algo que poderia ser corrigido na segunda parte, na qual se acompanha a recuperação da personagem sequelada nos movimentos das mãos e na fala, aos olhos da tal voz feminina que toma a narração, desvendando-se aos poucos. No entanto o começo, sugestivamente afeito a um pendor mais dramático, outra vez desanda para um circuito de observações aleatórias e interesses secundários, sem qualquer peso ou aderência.

Falta estofo, composição de ambiente e de personagens, dinâmica, direcionamento. É claro que se pode apelar para um fundo de significações não expressadas, mas aí, convenhamos, tudo pode ser tudo, como tudo pode ser nada.

Entre as mãos, enfim, configura-se muito mais a construção de um romance que um romance devidamente construído.

 

 

***

 

 

Livro: Entre as mãos

Editora: Record

Avaliação: Ruim

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